Jó 9-10: Questionando a Justiça de Deus
- Pastor Alex Daher

- há 9 horas
- 21 min de leitura
Série em Jó: Sofrimento Soberano
08 de Março de 2026 – IBJM
C. S. Lewis foi um escritor cristão. Ele escreveu Crônicas de Nárnia e outros livros que se tornaram muito populares. E como Jó, ele amava o Senhor e experimentou também sua dose de dor.
Ele se casou com uma um mulher chamada Joy quando ele tinha 57 anos. Ele acabou se casando tarde. E foi um casamento curto. Eles tinham apenas 4 anos de casados quando um câncer nos ossos levou a esposa dele.
Para lidar com a perda, ele escreveu um livro chamado “A Anatomia de um Luto”. Sem ter certeza do que acreditar sobre quem Deus é—esse Deus que levou a esposa dele tão rápido, ele escreveu:
Eu não acho que eu estou correndo perigo de deixar de acreditar em Deus. O perigo real é eu começar a pensar que Deus é bem diferente do que eu sempre achei. A pergunta que eu enfrento não é: “Então, existe realmente um Deus?”. A pergunta é: “Então, assim que Deus é?”
Ele achou que Deus era de um jeito—bom, amoroso, justo—mas depois da morte da esposa, C.S. Lewis ficou se perguntando se Deus era realmente quem ele sempre acreditou. Um Deus bom, amoroso e justo faria isso?
O sofrimento faz isso: ele tira os nossos pensamentos do lugar. O sofrimento é como uma mão que vem e embaralha e desafaz o quebra-cabeça da imagem de Deus que nós tínhamos montados.
Nós encaixamos as peças sobre quem Deus é ao longo do tempo. Parece que tudo estava no lugar. Até que vem a mão da dor e mistura tudo. Desfaz a imagem. E nós ficamos confusos sobre quem realmente é o Deus que governa esse mundo e a minha vida.
Jó está passando pelo que C.S. Lewis passou. E o que cada um de nós aqui já passou e vai passar. Diante da dor, Jó está confuso sobre o caráter de Deus. Confuso ao ponto de questionar a justiça de Deus. Esse Deus é realmente justo? Ele realmente me ama?
Eu quero lembrar vocês de uma das verdades que nós precisamos carregar durante todo o livro para interpretarmos Jó corretamente. A verdade é: Jó é crente. Jó é um adorador do Deus vivo e verdadeiro. O autor do livro repete isso várias vezes no capítulo 1 e 2.
Nós precisamos ouvir o que Jó tem a dizer segurando essa verdade. Eu estou falando isso porque Jó faz dizer algumas coisas erradas sobre Deus que podem nos chocar. Jó vai acusar Deus. Jó vai questionar Deus. Mas Jó é crente.
Isso não significa que Jó está fazendo o que é certo. Nós nunca devemos acusar Deus de fazer algo injusto.
Mas o fato de Jó ser crente nos lembra que crentes verdadeiros—que amam o Senhor Jesus Cristo—podem passar por momentos de enorme tristeza e confusão:
• E acabar falando o que não devem sobre Deus.
• E pensando o que não devem sobre Deus.
• E ainda assim, ter um coração que ama e confia em Deus.
A JUSTIÇA DE DEUS EM UM MUNDO INJUSTO
A assunto da justiça de Deus continua. Nós ouvimos a teologia de Bildade no capítulo 8. Bildade defende a justiça de Deus com uma teologia bem-organizada e bem-errada.
A explicação de Bildade para lidarmos com o sofrimento é: todo mundo recebe o que merece. Pessoas boas recebem coisas boas e pessoas más recebem coisas más. Ponto.
Nós não estamos satisfeitos com essa resposta. E Jó também não. Ele vai responder a Bildade. Mas os pensamentos de Jó não são tão bem-organizados quanto os pensamentos de Bildade.
Em alguns momentos, parece que Jó fala uma coisa e depois desiste. Jó parece mais confuso que os amigos dele.
O que não é de nos surpreender. O sofrimento profundo e repentino faz isso. Vocês lembram: o quebra-cabeça foi embaralhado. Uma mão—a mão de Deus—veio por trás de Jó e espalhou as peças e bagunçou tudo. Jó está confuso.
Onde está cada peça sobre o caráter de Deus? Onde o amor de Deus se encaixa? E a justiça? E a graça?
Mas apesar de Jó não ser tão organizado, a teologia dele é melhor que a de Bildade. O coração de Jó é o coração de um cristão.
Vamos ouvir Jó: no capítulo 9, ele fala com Bildade. No capítulo 10, Jó fala com Deus.
JÓ 9: COMO PODE UM MORTAL SER JUSTO DIANTE DE DEUS? (vv. 9:1-4)
Que o assunto continua a ser a justiça de Deus. Nós percebemos logo no início com a pergunta de Jó:
Jó 9:[1] Então Jó respondeu: [2] “Na verdade, sei que assim é; porque, como pode o mortal ser justo diante de Deus?
Parece um pouco estranho Jó concordar com Bildade depois de um monte de besteira que Bildade falou. Mas, para a nossa surpresa, Jó começa dizendo:
[2] Na verdade, sei que assim é;
Jó não concorda com a teologia inteira de Bildade, mas ele concorda que Deus é justo. Essa parte, Jó concorda.
Mas essa é justamente a angústia de Jó. Ele sempre soube que Deus é justo. Mas agora Deus está tratando Jó com injustiça (na mente de Jó). Ele quer resolver esse problema apelando para uma audiência no tribunal. Jó quer se defender diante de Deus—já que Jó tem certeza de que ele não é culpado.
Mas aí vem o problema: Deus é tanto o Juiz quanto o Acusador. Não tem como você vencer. Imagine, você entra em um tribunal em que a pessoa que acusa você de um crime é a mesma pessoa que vai julgar você. Você sempre vai perder!
[3] Se quiser discutir com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder. [4] Ele é sábio de coração e grande em poder; quem ousou desafiá-lo e sobreviveu?
Vocês percebem a angústia de Jó? Por um lado, ele quer ouvir de Deus (o Juiz) que ele é inocente. É o que ele mais quer: que o relacionamento dele com Deus esteja acertado.
Por outro lado, ele não tem esperança de que isso seja possível, porque com um Deus tão poderoso, tão grande, tão soberano, tão maior que nós do lado da acusação também, não tem conversa. Eu sempre vou perder e ser declarado culpado.
[2] (...) Como pode o mortal ser justo diante de Deus?
Não tem como! Os versículos 14-15 mostram esse conflito dentro de Jó:
[14] Como então poderei eu responder a ele? Como escolher as minhas palavras, para argumentar com ele? [15] Ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; pelo contrário, pediria misericórdia ao meu Juiz.
Eu quero falar com Deus e me defender. Mas eu sei que não vai adiantar nada.
• Como uma criança que quer pedir para o pai deixar ela sair para brincar, mas não tem esperança de que o pai vai deixar porque ele está de castigo.
• Como um homem que tem o desejo de pedir uma mulher em casamento, mas não tem esperança de que ela possa dizer “sim” porque ele é boa demais para ele.
O desejo está lá. A esperança, não. Esse é o olho do furacão na alma de Jó.
Ele quer muito resolver as coisas entre ele e Deus e provar que ele é inocente e não deveria estar sofrendo tanto, mas ele não acha que é possível resolver esse conflito com Deus.
Um conflito que, diga-se de passagem não existe de verdade; só existe na mente de Jó. Deus não está em nenhum conflito com Jó.
No resto do capítulo 9, Jó explica por que ele chegou a essa conclusão.
Vocês lembram que as peças do quebra-cabeça que Jó tinha montado sobre os atributos de Deus foram espalhadas. Os pensamentos de Jó ainda não estão muito organizados.
Eu vou tentar organizar o que Jó está falando sobre Deus em 4 atributos. Ele começa dizendo que Deus é:
1. INCOMPARÁVEL (vv. 9:5-13)
Jó tem uma visão elevada de Deus. No versículo 4, ele já tinha falado que Deus é:
[4] (...) sábio de coração e grande em poder;
A partir do versículo 5, ele descreve Deus como um Ser Incomparável.
Incomparável no seu poder:
[5] Ele é quem remove os montes, sem que saibam que na sua ira ele os transtorna. [6] Deus remove a terra do seu lugar, e faz as suas colunas estremecerem.
Incomparável na sua soberania:
[7] Ele dá uma ordem ao sol, e este não sai, e sela as estrelas.
[8] Sozinho ele estende os céus e anda sobre as costas do mar.
A criação prova a grandeza incomparável do Criador:
[9] Ele fez a Ursa Maior, o Órion, o Sete-estrelo e as constelações do Sul.
[10] Deus faz coisas grandes e insondáveis, e maravilhas que não se podem enumerar.
Ele termina esse trecho (no versículo 13) dizendo que até o monstro Raabe, essa figura que os povos pagãos usam para falar do caos, nem esse mostro inventado é maior do que Deus. Deus é incomparável!
Mas Jó pega esse atributo divino e lê de forma negativa. Como se fosse um problema para ele. Crente deprimidos às vezes fazem isso. Eles pegam ao positivo e, quando eles vão aplicar para eles, eles acham que aquilo é um problema.
Todas as coisas cooperam para aqueles que amam a Deus (Romanos 8:28).
“Ah, mas eu não amo a Deus como eu deveria. Esse versículo não é para mim”.
É, sim! É para todos os crentes—deprimidos e não-deprimidos!
Jó está fazendo isso. Ele olha para a grandeza de Deus como se fosse um problema para ele.
Jó olha para a grandeza do poder e da soberania de Deus sem incluir a grandeza do amor e da graça de Deus. E isso faz ele olhar para Deus como alguém que é CONTRA ele e não alguém que é POR ele.
Por isso, os próximos 3 atributos de Deus que Jó lista, na verdade, não são verdade. A grande dor de Jó o deixou em grande confusão também sobre quem Deus é.
Segundo, Jó vê Deus como:
2. INACESSÍVEL (vv. 9:14-19)
[16] Ainda que eu o chamasse e ele me respondesse, nem por isso eu creria que ele deu ouvidos à minha voz.
Por quê, Jó? Por que você está tão sem esperança de que Deus ouviria você?
[17] Porque [implícito: Deus] me esmaga com uma tempestade e sem motivo multiplica as minhas feridas. [18] Não me permite respirar, porque me enche de amargura.
O sofrimento, especialmente o sofrimento prolongado. Você ora e o problema continua. Você pede por algo bom—paz no seu espírito, a restauração de um relacionamento, a cura de uma doença, um casamento mais estável, filhos crentes—e Deus não faz o que você está pedindo.
Essa dor prolongada cria uma lógica falsa em nossa mente: a lógica de que Deus não está me ouvindo porque ele não está fazendo o que eu estou pedindo. Você já se sentiu assim alguma vez?
Naquele mesmo livro sobre o luto, C. S. Lewis foi honesto com os sentimentos dele. Ele disse:
Você vai a Deus quando você está em uma necessidade desesperada, quando qualquer outra ajuda é inútil, e o que você encontra? Uma porta fechada na sua cara e o som de trancas do lado de dentro. E depois disso, silêncio (Lewis, Anatomia de um Luto).
Você já passou por isso? Essa sensação de que sua oração para no teto e não chega ao céu. A sensação de que você bate na porta para falar com Deus—“Senhor, me atende, Senhor, me atende!”, mas a porta fica fechada. Trancada. “E depois disso, silêncio”.
É como Jó está se sentindo. É como C.S. Lewis se sentiu. É como nós podemos nos sentir quando nós vamos ao Senhor com uma necessidade desesperada e nada acontece. A impressão é que a porta está trancada e Deus é inacessível.
Meu irmão em Cristo, esse pode ser um pensamento honesto, mas ele não é um pensamento verdadeiro. A lógica de Jesus é bem diferente dessa lógica da porta trancada com um Deus que não se importa do outro lado. Jesus disse:
[7] —Peçam e lhes será dado; busquem e acharão; batam, e a porta será aberta para vocês. (...) [Logo depois, Jesus diz:] [9] (...) quem de vocês, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra? [10] Ou, se pedir um peixe, lhe dará uma cobra? [11] Ora, se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem? (Mateus 7:7,9-11)
A lógica verdadeira é a lógica de Jesus. Você pede, e Deus ouve. Um Pai como Deus nunca negaria algo bom para os seus filhos.
Isso não significa que Deus irá nos dar tudo o que nós pedimos. Mas se ele não deu o que nós estamos pedindo, é porque ele tem uma ideia melhor.
Mas Jó ainda está confuso. Ele não está vendo a Deus corretamente. Sabe quando seus olhos estão cheios de lágrimas e fica tudo embaçado e você não consegue enxergar direto? Jó está assim.
Além de um Deus inacessível, Jó está enxergando Deus como um Deus injusto. Jó realmente não está bem.
3. INJUSTO (vv. 9:20-24)
[20] Ainda que eu seja justo, a minha boca me condenará; embora eu seja íntegro, ela me declarará culpado.
Jó está convencido de que ele não tem um pecado que justifique o tratamento que Deus está dando para ele. Mas ele está convencido também de que com Deus não tem conversa. Você pode até ser íntegro, Deus vai dizer que você é culpado. Ele não é um Juiz justo.
E por isso, Jó perdeu esperança de ser tratado corretamente por Deus:
[21] Eu sou íntegro, mas não me importo comigo, não faço caso da minha vida. [22] Para mim, é tudo a mesma coisa; por isso, digo: ele destrói tanto os íntegros como os perversos.
Se eu fosse fazer uma mímica de como Jó está se sentindo, eu mexeria os ombros assim. “Eu não me importo. Deus destrói tanto os íntegros como os perversos. Não importa como você viva. Deus destrói todo mundo. Ele não tem um critério justo”.
A dor de Jó embaralhou tanto as peças na cabeça dele, que ele não consegue ver mais a bondade de Deus:
[23] Se um flagelo mata de repente, ele rirá do desespero dos inocentes.
Que visão negativa (e errada!) de Deus que Jó está tendo: “Deus rirá do desespero dos inocentes?”
Mas na mente de Jó, reduzir a soberania de Deus para explicar o mal nesse mundo não é uma alternativa. Deus é Deus.
[24] A terra está entregue nas mãos dos ímpios, e Deus ainda cobre o rosto dos juízes. Se ele não é o causador disso, quem seria?
A pergunta no original é: “Se não é ele [Deus], então quem é?”
Ele tem poder para fazer o que ele quiser. Mas como todo esse poder, ele permite que os políticos corruptos vivam em mansões enquanto os crentes vivam na pobreza. Ele permite que ladrões desfrutem de banquetes e o povo dele passe necessidade.
Ele permite que os maus se deem bem e os bons se deem mal, o que prova que a teologia de Bildade (e da prosperidade) é desconectada da realidade.
Como lidar com as injustiças em um mundo governando por um Deus justo?
Essa é uma pergunta justa. Lícita. Mas Jó está indo para o caminho errado. Ele está atribuindo injustiça a Deus, em vez de se agarrar que, no tempo certo, Deus não tapará o rosto para nenhuma injustiça. Em vez de se agarrar que nós podemos confiar que Deus está usando tudo—incluindo as maldades desse mundo—com propósitos santos.
Jó termina o capítulo 9 com mais um atributo de Deus que explica por que ele não tem esperança de ser ouvido por Deus.
É porque Deus está indignado com ele.
4. INDIGNADO (vv. 9:25-35)
Jó até volta a falar um pouco do sofrimento dele:
• No versículo 25 ele fala dos dias dele como um corredor que nem para para poder ver a felicidade.
• No versículo 28 ele fala das dores dele apavorando a ele.
Mas logo depois ele volta a falar do relacionamento dele com Deus:
[28] ainda assim todas as minhas dores me apavoram, porque bem sei que não me considerarás inocente. [29] Eu serei condenado; por que, pois, trabalho em vão?
O capítulo 9 está lotado de linguagem de um tribunal. Jó desenha um cenário onde ele é o réu—aquele que sofre uma acusação. E Deus é tanto o Juiz (quem julga) quanto o Promotor (quem acusa). Entrar em um tribunal com esse Deus, não tem como ganhar.
Ah, se Jó soubesse que Satanás é o Acusador, não Deus! Mas Jó não sabe. Ele não ouviu a conversa que nós ouvimos no capítulo 1 e 2. Ele está lendo quem Deus através do que ele está passando. O que não é uma boa ideia. (Eu quero falar mais sobre isso no final).
[32] Porque ele não é ser humano, como eu, a quem eu responda, se formos juntos ao tribunal. [33] Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós dois. [34] Que ele tire a sua vara de cima de mim, e que o seu terror não me amedronte! [35] Então falarei sem o temer; do contrário, eu não estaria em mim.
A sensação de Jó é que não dá para chegar perto desse Deus. Jó está com medo. Jó está convencido de que ele é inocente, mas para ele estar sofrendo assim, ele está convencido também que Deus está irado com ele—por um motivo que ele não sabe.
• Quando você peca, cristão, como você lida com Deus? Você fica um tempo longe do Senhor esperando ele se acalmar porque você acha que ele está indignado com você?
• Ou quando você sofre, cristão, como você lida com Deus? Você fica um tempo longe de Deus esperando você se acalmar porque você está indignado com Deus?
Os dois pensamentos são ruins. Nós nunca deveríamos ficar indignados com Deus e (tão importante quanto!) Deus não está indignado com você, cristão.
Quando você peca, você não precisa (e não deve!) esperar um tempo para se aproximar de Deus de novo, como se Deus precisasse contar até 10 e respirar para não derramar a ira dele sobre você.
Esse é um pensamento errado e ruim, cristão. É uma visão errada de quem Deus é para nós EM CRISTO. Porque em Cristo, a ira já foi derramada. Toda. Ele bebeu até a última gota. Para você que está em Cristo, o cálice está vazio.
Em Cristo, quando você, filho pródigo, se dá conta de que você está comendo a comida de porco do pecado e mesmo todo sujo, se levanta para ir até o seu pai para pedir perdão e ajuda, Deus já abriu o portão da casa e está vindo em sua direção para abraçar você.
Então, o meu pecado não é um problema? É. O pecado é um problema enorme. O seu pecado é o que impede você de se aproximar de Deus.
O que acontece é que, quando você coloca sua fé em Cristo, Deus coloca o seu pecado pregado na cruz dele. E agora que o seu pecado está preso lá—e já foi pago, ele não pode mais tornar você culpado diante de Deus.
Agora Deus é completamente por você. Você vai ao Senhor pedir perdão como alguém que confia que Cristo já pagou. Essa é a sua confiança. Jó está olhando para Deus sem olhar para o Salvador que Deus prometeu—no caso dele, ainda no futuro; no nosso caso, no passado. Jó não está olhando para Deus pela lente da fé e da graça. Não é à toa que ele está vendo Deus de forma tão negativa.
O capítulo 10 é a continuação da resposta de Jó a Bildade. Mas Jó não está mais falando com Bildade sobre Deus. Já agora está falando com Deus sobre Deus. O capítulo 10 é uma queixa de Jó para Deus. Veja como o capítulo começa:
JÓ 10: UMA QUEIXA AO MEU DEUS
[1] Estou cansado de viver. Darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma. [2] Pedirei a Deus: ‘Não me condenes!’ Faze-me saber o que tens contra mim.
A partir daqui até o final, Jó não está falando mais com Bildade. Jó está falando com Deus. Jó não usa mais “ele” para falar de Deus. Agora Jó vai usar “tu”.
No capítulo 9, ele disse que era inútil falar com Deus porque Deus era inacessível e injusto e indignado e não tem como ter uma audiência no tribunal com um Deus assim. Não vale a pena. Não vai dar em nada. Jó disse: “Eu não me importo comigo”.
Mas agora no capítulo 10 parece que ele esqueceu do que ele acabou de falar e ele vai, sim, falar com Deus. Vocês sabem por quê?
Porque, no fundo, ele se importa.
Isso é bem comum na mente de um sofredor. Se você já teve que lidar com alguém sofrendo—ou na sua própria experiência.
Você não tem esperança, mas você tem esperança. Jó está sem esperança, mas no fundo, no fundo da alma dele, tem esperança. Mesmo que sejam algumas poucas gotas, um vaso de barro crente nunca fica completamente seco.
Como um autor disse: “Jó se desespera sem desistir” (Hartley, The Book of Job, 165).
Essa é a terceira queixa que Jó vai fazer desde o início do livro:
• No capítulo 3, ele reclamou muito da vida, mas ele não se dirigiu a Deus nenhuma vez.
• No capítulo 7, ele reclamou muito da vida, e ele se dirigiu a Deus algumas vezes.
• Agora, no capítulo 10, Jó continua reclamando muito da vida, mas ele se dirige a Deus o tempo todo. E o sofrimento dele fica em segundo plano. O que mais importa para Jó é o relacionamento dele com Deus.
Jó divide a queixa dele em 3 partes: ele tem duas 2 perguntas para Deus e 1 pedido final.
1. PRIMEIRA PERGUNTA: O QUE O SENHOR TEM CONTRA MIM PARA ME TRATAR DESSE JEITO? (vv. 10:1-7)
O primeiro e o último versículo essa primeira parte resumem o que está no coração de Jó:
[2] Pedirei a Deus: ‘Não me condenes!’ Faze-me saber o que tens contra mim.
[7] Bem sabes que eu não sou culpado; todavia, não há ninguém que possa me livrar da tua mão.
Nos versículos do meio—do 3 ao 6—a reclamação de Jó é que Deus está agindo contra Jó como se ele fosse um ser humano limitado, que não tem todo o conhecimento necessário para fazer um julgamento justo. Porque, na mente de Jó, se Deus tivesse, ele não trataria Jó assim.
Jó quer ouvir Deus, o Juiz, dizendo: “Você não é culpado”, mas ele não vê como. Deus trata Jó como um condenado sem Jó ter a chance de ouvir qual é a acusação que Deus tem contra ele.
Nós sabemos que Deus não tem nenhuma acusação contra Jó. Mas Jó não sabe. E por isso, ele fala com Deus desse jeito.
2. SEGUNDA PERGUNTA: O SENHOR ME CRIOU PARA ME DESTRUIR? (vv. 10:8-17)
[8] As tuas mãos me plasmaram e me fizeram, porém, agora, queres destruir-me.
[9] Lembra-te de que me formaste como em barro. E, agora, queres reduzir-me a pó?
A imagem que Jó tem é de Deus como o oleiro e nós como uma massa de barro. Deus se sentou na cadeira e começou a moldar a massa para ficar do jeito que ele queria.
[11] De pele e carne me vestiste e de ossos e tendões me teceste.
Jó reconhece que é Deus quem cria vida e quem sustenta a vida dele:
[12] Tu me deste vida e bondade, e o teu cuidado guardou o meu espírito.
• Jó não tem dúvidas que Deus é o Criador dele.
• Jó não tem dúvidas que Deus é soberano.
• Jó não tem dúvidas que Deus é quem sustenta a vida dele.
Mas Jó tem dúvidas se é justo o que Deus está fazendo: criar alguém, cuidar por um tempo, para depois pegar a espatifar no chão e não sobrar quase nada.
Jó está vendo Deus como alguém que tinha um plano secreto de criar Jó só para destruí-lo depois. (Isso não é verdade, mas é assim que Jó se sente):
[13] Mas ocultaste estas coisas no teu coração; e agora sei que este era o teu plano. (...) [16] Porque, se levanto a cabeça, tu me caças como um leão feroz e de novo revelas o teu poder maravilhoso contra mim. [17] Renovas contra mim as tuas testemunhas e multiplicas contra mim a tua ira; males e lutas se sucedem contra mim.
Ele olha para Deus e não consegue enxergar um Pai, um Amigo, um Criador e Salvador. A dor de Jó está fazendo ele ver Deus como alguém que está contra ele, caçando Jó como um leão faminto—querendo destruir a vida de Jó.
Interessante que Jó não concorda com os amigos dele—de que ele está sofrendo por causa de algum pecado escondido que ele cometeu. Mas ele de alguma forma está contaminado com a ideia de que, para Deus estar tratando ele dessa forma, Deus tem alguma coisa contra ele. (Mas Deus não tem!)
Agora vem:
3. O PEDIDO FINAL: DEIXA-ME EM PAZ! (vv. 10:18-22)
[20] Não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me em paz, para que por um pouco eu tome alento.
Esse é o um pedido que ele já tinha feito no lamento anterior, no capítulo 7. Mas como nada mudou na vida dele, ele continua pedindo para Deus dar um espaço para ele respirar—ficar menos sufocado pelo dor e ter uns dias de tranquilidade antes de morrer.
Jó está mal. A queixa dele termina em uma nota triste. Como no Salmo 88. Jó ainda não consegue ver uma luz no fim do túnel.
Ele quer ter o relacionamento com Deus restaurado, mas ele não vê como. Ele volta a pensar na morte. Ele fala dela de várias maneiras:
[21] antes que eu vá para o lugar do qual não voltarei, para a terra das trevas e da sombra da morte, [22] terra de escuridão, de trevas profundas, terra da sombra da morte e do caos, onde a própria luz é como a escuridão.
Esses dias eu estava lendo o Salmo 56. Em um momento, Davi fala:
No dia em que eu te invocar, os meus inimigos baterão em retirada. Uma coisa eu sei: que Deus é por mim (Salmo 56:9).
Não é maravilhoso viver com uma convicção de que “Deus é por mim”? Deus está a meu favor. Do meu lado. Se ele é um leão, ele não quer me caçar. Ele vai me proteger.
Mas o Salmo que Jó criou na cabeça dele (e que não existe) é:
Uma coisa eu sei: que Deus é contra mim.
É isso que está deixando Jó mais aflito. A dor da perda dos filhos e dos bens e da saúde ainda machuca. Ele ainda sente. Mas a mente de Jó agora está sendo mais controlada pelo relacionamento dele com Deus.
Jó é crente mesmo. Ele pode até falar o que não deveria. Ele pode até não estar lendo a situação dele corretamente. Mas ele ama a Deus.
Mais do que qualquer outra coisa, Jó quer Deus. Mesmo tão confuso e tão frustrado, Jó sabe para onde ele tem que ir: para Deus. Ele se queixa com Deus. Ele apela para Deus.
O que ele mais quer, mais do que ter seus camelos e ovelhas e bois de volta—mais até do que ter os filhos de volta—Jó quer Deus de volta.
Ele quer ter certeza de que Deus olha para ele como alguém que é o um crente verdadeiro. Alguém que foi declarado justo no tribunal de Deus.
Esse é o coração de um adorador-sofredor. Nem tudo o que ele fala pode estar certo. Mas ele está certo de que ele quer Deus.
APLICAÇÃO: QUEM É ESSE DEUS?
Vocês lembram da frase do C.S. Lewis que eu citei no início:
A pergunta que eu enfrento não é: “Então, existe realmente um Deus?”. A pergunta é: “Então, assim que Deus é?”
O perigo para nós não é deixar de acreditar que Deus existe, mas começa a acreditar que Deus é bem diferente do que eu imaginei. É ter a imagem de Deus como cheio de amor, compaixão, graça ser bagunçada ao ponto de eu não mais saber como Deus é. Ele é mesmo amor? Ele é mesmo justo?
Jó está lendo quem Deus através da dor que ele está passando. O que não é uma boa ideia. Crente, não faça isso. Não defina o caráter de Deus a partir da quantidade de dificuldade na sua vida.
Vida calma, Deus me quer.
Vida difícil, Deus não me quer.
Vida calma, Deus me quer.
Vida difícil, Deus não me quer.
Quase como aquela brincadeira do “bem me quer, mal me quer”. Pelo menos era assim na minha infância que as crianças descobriam se uma menina gostava de você ou não.
Você pegava uma flor—geralmente uma flor pequena com umas pétalas roxas—e para cada pétala que você arrancava, você alternava: “bem me quer”, e na próxima pétala, “mal me quer”, “bem me quer”, próxima pétala, “mal me quer”. E a última pétala define o que aquela menina sentia por você.
Povo de Deus, por favor, não vamos entrar nesse jogo de superstição com Deus. Deus não quer que nós usemos as pétalas da vida calma ou vida difícil para definir quem ele é. Ele quer que nós leiamos esse livro para aprender quem ele é.
O MEDIADOR
O que nós podemos fazer quando nós estamos nesse estado de tanta perplexidade que nós não conseguimos olhar para Deus e ver quem ele realmente é?
Como você pode ajudar alguém que, por causa do sofrimento, está vendo Deus como alguém inacessível em vez de perto; como se Deus estivesse indignado, em vez de gracioso; como se Deus fosse injusto, em vez de perfeita e completamente justo?
A resposta está na própria resposta de Jó. Jó está indo na direção certa. Ele ainda está tateando, como em um labirinto escuro, mas ele está na direção certa—em direção à saída.
Volte no capítulo 9, por favor. Em um momento de angústia, querendo muito ser declarado justo—ser justificado—por Deus, Jó fala no capítulo 9, versículo 32:
Jó 9:[32] Porque ele não é ser humano, como eu, a quem eu responda, se formos juntos ao tribunal. [33] Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós dois.
A palavra “árbitro” no versículo 33 é a mesma palavra para mediador. Jó está certo, nós precisamos de um mediador para lidar com Deus. Quem se nós quer entrar em um tribunal com Deus e ser julgado pela nossa vida.
Não está claro ainda para Jó nesse ponto, mas o Esmagador da Serpente de Gênesis 3:15 que Deus prometeu para Adão é esse Mediador.
Um Mediador que, ainda não está claro para Jó nesse ponto, se tornou ser humano como ele, mas sem pecado.
Eu diria para Jó: “Jó, você já tem esse Mediador por causa da sua fé. Deus não é contra você. Deus é por você”.
Por causa desse Mediador, porque você, cristão, está “nele”, você não precisa temer o tribunal de Deus. Aquele que andou nas costas do mar e fez as ondas e os ventos pararem, a mesma pessoa que fez a Ursa Maior, o Órion e as constelações do Sul, a mesma pessoa que um dia teve dias como de um mortal, se tornou o nosso Mediador.
1Timóteo 2:5—Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem.
Um Mediador que se levantou da cadeira de Juiz, se sentou na nossa cadeira de réu, e foi sentenciado a morte que nós merecemos por causa do nosso pecado.
É só porque nós estamos “nele”—pela nossa fé “nele”—que nós podemos ter certeza, mesmo durante a maior dor—que Deus é por nós e não contra nós.
O que ele diz nesse livro é que se você está em Cristo—se você confia que o Filho de Deus sofreu e morreu por você naquela cruz, então você pode dizer do fundo da sua alma: “bem me quer”. Deus bem me quer.
CONCLUSÃO
O que enxuga nossas lágrimas e nós faz ver Deus corretamente—com uma visão menos embaçada—é nos lembramos do nosso Mediador.
A diferença em saber que Deus é por mim e não contra mim está na fé. Na sua fé em Cristo Jesus. Deus nunca nos vê fora de Cristo. Ele sempre nos vê em Cristo.
Essa é a nossa teologia em uma palavra: “nele”.
Cristão, você está nele. E se você está nele, você está seguro. O Juiz já declarou você justo.
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