Jó 12-14: Ainda que Ele me Mate
- Pastor Alex Daher
- há 3 dias
- 22 min de leitura
Série em Jó: Sofrimento Soberano 22 de Março de 2026 – IBJM
Shane Barnard é um cantor cristão. Ele deu um testemunho muito bonito sobre a fé da mãe dele. Ele estava em um ônibus, viajando, quando ele recebeu uma mensagem da mãe no celular:
Seu pai teve um ataque cardíaco. Ele está no hospital. Ele está vivo, mas está mal.
Shane pega um avião e vai se encontrar com a mãe e o pai no hospital. Eles oram e oram para que o Senhor poupe a vida do pai. A mãe dele tinha acabado de se converter aos 70 anos. Uma senhora cristã recém-convertida.
Eles estão em um quarto pequeno do hospital. O pai entubado. Até que o médico chega e avisa: “Ele faleceu”. Deus tinha outros planos e não respondeu com “sim”.
A mãe começa a ficar desesperada, começa a bater no peito do marido, chorando. Shane abraça a mãe e a leva para sentar na cadeira. Ela ainda chorando, ainda transtornada, ela começa a falar baixinho:
O Senhor o deu. O Senhor o tomou. Bendito seja o nome do Senhor.
Como assim? O que faz alguém que acabou de perder a pessoa que mais amava nesse mundo, ainda em grande dor, ir até aquele que tomou o marido dele—Deus—e bendizer o nome dele?
A explicação está em um fenômeno chamado fé.
Quando Deus abre os olhos de alguém para que essa pessoa veja o seu pecado e veja o Cristo crucificado para salvar você, o seu mundo muda. Sua vida vira. Você entra em um relacionamento com Deus de amor e confiança e adoração.
E o sofrimento nessa vida, em vez de apagar sua fé, ele intensifica. O cristão, no meio da dor, em vez de correr DE Deus, ele corre PARA Deus. É a experiência mais profunda e poderosa que uma pessoa pode experimentar. Essa experiência se chama fé.
Mas a corrida da fé não é plana. Eu imagino que essa senhora que perdeu o marido teve dias de mais tristeza. E dias de mais confiança. A nossa corrida da fé é como uma Montanha-Russa. Altos e baixos.
Jó continua muito ferido e muito frustrado com o que Deus está fazendo com ele. Ao mesmo tempo, (como a mãe do Shane) Jó sabe para onde ir: para Deus.
A resposta de Jó tem 3 capítulos. Nós vamos dividir a resposta de Jó no meio:
• O capítulo 12 e até mais ou menos a metade do 13, Jó está implorando com os amigos para eles pararem de fazer o que ele estão fazendo—falando coisas falsas.
• Da segunda metade do capítulo 13 até o final do 14, Jó está implorando com Deus para Deus parar o que ele está fazendo—tratando Jó como um inimigo.
Primeiro, vamos à resposta de Jó aos amigos.
Essa é a resposta mais longa de Jó até agora. E a mais nervosa também. Jó está cansado de ouvir essas acusações falsas—de que ele tem algum pecado escondido. Agora ele parte para o ataque.
1. JÓ REPREENDE OS AMIGOS (12:1-13:12)
Jó tem 3 argumentos para provar que a teologia deles é uma teologia que só quem vive de olhos fechados pode abraçar.
ARGUMENTO #1: MUITAS VEZES, OS BONS SE DÃO MAL E OS MAUS SE DÃO BEM (12:1-12)
Diferente do que os amigos insistem.
[1] Então Jó respondeu: [2] Na verdade, vocês são o povo, e com vocês morrerá a sabedoria.
Jó começa sendo sarcástico:
“Uau, vocês são muito sábios. O dia em que vocês morrerem, o mundo vai ficar sem sabedoria. Como nós vamos sobreviver sem vocês, o trio dos sabichões da Terra!?”
Antes de atacar de novo, ele se defende:
[3] Mas eu também tenho entendimento; em nada sou inferior a vocês. Quem não sabe coisas como essas?
Agora vem o ataque. Vocês lembram o fundamento do pensamento dos amigos de Jó: “Deus sempre pune os maus. Se você está sofrendo, é porque você está em pecado”.
Jó fala: “Ah é!? Então me explica isso”:
[4] Eu sou motivo de riso para os meus amigos — eu, que invocava a Deus, e ele me respondia; o justo e o reto são motivo de riso.
Jó está dizendo: “Eu sou um exemplo de que a teologia de vocês não funciona! Eu sou um homem bom—que temia a Deus—, mas que estou sofrendo humilhação.
Agora ele ataca o outro lado da teologia deles: muitas vezes, são os maus é que se dão bem:
[6] Os opressores têm paz em suas tendas, e os que provocam a Deus estão seguros; o deus deles é a sua própria força.
Jó está expondo a cegueira do conselho dos amigos. Sinceramente, a única maneira de alguém defender essa ideia de que os “maus sempre se dão mal e os bons sempre se dão bem” é se a pessoa andar pelo mundo de olhos fechados.
• O mundo está cheio de ateus e falsos mestres que tem um travesseiro fofo, uma saúde forte, uma casa boa, um conta bancária cheia de números.
• E o mundo está cheio de adoradores do Senhor que estão mal.
Esses dias eu recebi a notícia de que um irmão nosso teve a oportunidade de assinar um documento com uma fraude para beneficiar a empresa em que ele estava. Ele disse: “Não, eu não posso assinar isso. Seria errado”.
Sabe o que aconteceu com ele? Ele foi demitido.
Ele sofreu, não por causa do pecado. Foi exatamente o contrário! Agora ele está desempregado porque ele foi fiel, e não pecou! E os desonestos vão achar um outro que assine o documento falso. Nós vivemos em um mundo injusto.
Eu pulei o versículo 5. Jó repreende a atitude deles também:
[5] No pensamento de quem está seguro [ele está falando dos amigos dele] há desprezo pela desgraça, um empurrão para aquele cujos pés já vacilam.
Esse é o jeito de Jó falar: pimenta nos olhos dos outros é refresco. Eu estou escorregando nas minhas lágrimas, não consigo para em pé, e em vez de vocês segurarem, vocês vem e me empurram. Em vez de me consolar, vocês me condenam.
Essa ideia de que “os maus sempre se dão mau e os bons sempre se dão bem” é tão absurda que até os elefantes e os pardais, se eles pudessem falar, ensinariam a eles uma teologia melhor:
[7] Mas pergunte agora aos animais, e cada um deles o ensinará; pergunte às aves do céu, e elas lhe contarão. [8] Ou fale com a terra, e ela o instruirá; até os peixes do mar lhe contarão. [9] De todos estes, quem não sabe que a mão do Senhor fez isto?
Todo mundo sabe que a mão do Senhor governa o mundo que ele fez. Até os animais sabem disso. Deus é Deus. Deus nunca comete injustiças, mas Deus é soberano sobre os injustos e suas injustiças.
A vida de cada um de nós, junto com todas as moléculas desse Universo, estão nas mãos de Deus.
[10] Na sua mão está a vida de todos os seres vivos e o espírito de todo o gênero humano.
A experiência da nossa vida—é só você abrir os olhos—prova que os amigos de Jó são como os fariseus do tempo de Jesus. Eles são guias cegos que vão levar as pessoas cair: o mundo está cheio de gente boa sofrendo e gente má se dando bem. E Deus está por trás de tudo.
O segundo argumento de Jó (a partir do versículo 13) para provar que a teologia simplista deles é incapaz de nos ajudar a entender a nossa vida é que:
ARGUMENTO #2: DEUS É IMPREVISÍVEL (12:13-25)
O mundo é muito mais complicado do que eles pensam. Deus muitas vezes usa o poder e a sabedoria dele de uma forma destruidora—como fez com Jó—e ninguém sabe explicar por que (apesar do amigos acharem que sabem).
[13] Com Deus estão a sabedoria e a força; ele tem conselho e entendimento.
Jó e seus amigos (e nós!) concordamos que “com Deus estão a força e a sabedoria”:
• Deus tem a sabedoria para saber exatamente o que fazer.
• E ele tem o poder para fazer o que ele sabe que tem que fazer.
Não existe nenhuma limitação em Deus.
Mas aqui vem a divergência. Os amigos de Jó acham que eles podem explicar tudo nessa vida, incluindo todo o sofrimento desse mundo. E todas as tragédias e mortes e desastres na natureza.
Jó não concorda. Deus é muitas vezes imprevisível. Ele usa a força e a sabedoria dele para criar calamidades e ninguém é capaz de entender tudo.
[14] O que ele derruba não pode ser reconstruído; (...)
[15] Se ele retém as águas, elas secam; se ele as solta, elas devastam a terra.
Quem de nós é capaz de explicar e prever tudo o que Deus irá fazer no mundo? Aparentemente os amigos de Jó conseguem.
Jó usa agora vários grupos de pessoas em posição de liderança—poderosos aos olhos dos homens—mas que Deus derruba com um sopro como se eles fossem um castelo de cartas.
[17] Ele leva os conselheiros embora, descalços, e faz os juízes de tolos.
Nos versículos 18 a 21, ele fala de reis e sacerdotes e anciãos e príncipes e poderosos. Os líderes desse mundo são com peças de xadrez nas mãos de Deus. E Deus coloca as peças onde ele quer. E ele sempre vence.
Não só líderes, mas Deus faz isso com nações inteiras:
[23] Deus engrandece as nações e depois as destrói; dispersa-as e de novo as congrega.
Deus é imprevisível. Esse é o ponto de Jó. Essa teologia que se propõe a explicar tudo o que Deus está fazendo é, no melhor caso, simplista demais. No pior caso, pura arrogância. A verdade é que existe muito mistério em como Deus governa o mundo.
A teologia de Jó é melhor que a dos amigos. Às vezes, reconhecer que você sabe menos é sinal de sabedoria.
Jó está usando desse argumento—do poder destruidor e imprevisível de Deus—para se defender diante dos seus amigos. É como se Jó estivesse dizendo:
“Vocês não são capazes de explicar o meu sofrimento. Deus usa o poder dele para derrubar as pessoas—como ele está fazendo comigo!—e ninguém sabe o porquê. Eu estou cansado de falar com vocês! Eu quero falar com Deus!”
Que é o que parece que vai acontecer no início do capítulo 13. Jó repete o que ele disse no início do capítulo 12.
Jó 13:[1] Eis que os meus olhos viram tudo isso, e os meus ouvidos o ouviram e entenderam. [2] O que vocês sabem eu também sei; em nada sou inferior a vocês.
E fala do desejo dele de lidar diretamente com Deus:
[3] Mas falarei ao Todo-Poderoso e quero defender-me diante de Deus.
Mas foi um alarme falso. Jó ainda não vai falar com o Todo-Poderoso. Ele guardou um último ataque contra os seus amigos. Ele tem mais um argumento contra a teologia cega deles
ARGUMENTO #3: VOCÊS DEFENDEM A DEUS COM MENTIRAS
Jó está nervoso:
[4] Vocês, porém, cobrem a verdade com mentiras; todos vocês são médicos que não valem nada. [5] Quem dera vocês ficassem completamente calados! Vocês poderiam passar por sábios!
O problema é que eles abrem a boca, sai um monte de besteira, e todo mundo fica sabendo que eles são tolos.
Eles só aumentam a dor de Jó com palavras duras e acusações e mentiras.
[7] Será que vão dizer perversidades em favor de Deus? Vão dizer mentiras a favor dele? [8] Serão parciais por ele? Argumentarão a favor de Deus?
Até o versículo 10, a acusação que Jó tem contra os seus amigos é a seguinte: vocês criaram esse esquema teológico de que Deus é justo e por isso se alguém sofre é porque essa pessoa está merecendo sofrer porque ela pecou. Esse não é o meu caso. Vocês mentem para defender a justiça de Deus!
É bom nos lembrarmos que Deus, no final do livro de Jó, Deus concorda com Jó e não com os amigos.
Jó, então, vira a mesa: os amigos dele querem colocar medo em Jó dizendo que ele é um pecador que esconde os pecados diante de Deus. Jó diz que eles que estão pecando e eles que deveriam ter medo de Deus e falar esse monte de besteira em nome de Deus.
[11] A grandeza dele [de Deus] não os amedrontaria? E o terror dele não cairia sobre vocês? [12] As máximas de vocês são provérbios de cinza [esfarelam na mão]; as defesas de vocês são muralhas de barro.
É só empurrar um pouco que ela cai no chão e quebra. Foi o que Jó fez. Ele derrubou a muralha de barro da teologia deles com 3 empurrões—3 argumentos:
1. Pessoas que amam o Senhor também sofrem.
2. Deus governa de forma imprevisível.
3. Vocês mentem só para manter a definição de justiça de Deus (errada!) que vocês têm.
Chega! Vocês são guias cegos e não me ofereceram nada de útil. Eu quero falar com Deus. Esse é o espírito de Jó.
Nós entramos em uma transição. Do versículo 13 ao 19, Jó está se preparando para falar com Deus.
TRANSIÇÃO: DOS AMIGOS PARA DEUS (13:13-19)
[13] Calem-se diante de mim, e eu falarei; que venha sobre mim o que vier. [14] Tomarei a minha carne nos meus dentes e porei a minha vida nas minhas mãos.
Mas é nessa transição que Jó entra em uma montanha-russa. A partir do versículo 15 (até o final do próximo capítulo!), Jó vai passar por muitos altos e baixos.
Em alguns momentos, ele está lá no alto—mais perto do céu (com esperança), e em outros momentos ele está embaixo, mais perto do fundo do poço, querendo morrer.
Ele começa no alto. O versículo 15 não parece muito com alguém que está no alto:
[15] Eis que ele me matará, já não tenho esperança; mesmo assim defenderei a minha conduta diante dele.
Mas se você está usando uma Bíblia da igreja (NAA), você vai perceber que nesse versículo que logo depois da palavra “esperança” tem um número 1. Se você for para o final da página, você vai ler o seguinte:
113:15 Uma variante textual traz ainda que ele me mate, nele esperarei.
Essa é a tradução considerada tradicional. É a tradução da NVI e várias outras traduções da Bíblia.
AINDA QUE ELE ME MATE!
Essa diferença de tradução está em uma letra do texto original—em hebraico. Essa letra diferente muda a tradução de “NÃO esperarei” para “NELE esperarei”.
Eu entendo que nós devemos seguir a tradução que está no final da página—que é a tradução mais tradicional: “Ainda que ele me mate, nele esperarei”. Ela casa melhor com o versículo seguinte, que é mais positivo:
[16] Também isto será a minha salvação: o fato de um ímpio não comparecer diante dele.
Isso significa que, neste ponto, Jó está no alto. Jó está dizendo:
“Ainda que Deus me mate, eu não vou parar de confiar nele. Eu não vou parar de esperar nele. O meu Deus pode me destruir, eu nunca vou abandoná-lo”.
Essa é uma declaração impressionante de fé: Jó reconhece que Deus está por trás do sofrimento dele. Como a mãe do Shane reconheceu no hospital E como você reconhece na sua vida, crente.
Você sabe que Deus está no controle do seu sofrimento, que de alguma maneira, ele está causando a dor, e ainda assim, o que você faz é correr para ele. O crente tem uma confiança no amor de Deus, mesmo quando o amor dele dói.
A atitude de Jó se parece com a experiências que, às vezes, os pais têm quando disciplinam seus filhos.
PAIS E FILHOS
Você ama demais aquela criança fofa. Mas ela desobedeceu. Você precisa ensiná-la que o pecado tem consequência.
Você a leva para o quarto e explica: “Você desobedeceu o papai. Isso não honra o Senhor”. Você coloca ela no colo e dá uma palmada—o suficiente para ser um pequeno alerta, não para machucá-lo.
Com os mais dramáticos, é aquela choradeira. Mas qual é a primeira coisa que ele faz? Ele vai na minha direção e me abraça e se agarra no meu pescoço.
Ela não foge. Não vira as costas para mim. Não pensa em me dar uma palmada também. Eu causei uma dor nele, e ele corre para mim. Esse é Jó com Deus. Esse somos nós com Deus Pai.
Deus não está disciplinando Jó. A dor de Jó não é por causa do pecado. Mas o princípio se mantém: Jó vai em direção daquele que lhe causou dor.
Ainda que ele me mate, nele esperei.
A IMORTALIDADE DA FÉ
Essa é uma das declarações mais poderosa de fé em toda a Bíblia. Essa declaração de Jó prova que Satanás estava errado: Jó não confia em Deus só porque Deus deu um monte de coisas para ele. Jó confia em Deus mesmo que Deus tire tudo dele—até a vida!
Uma pessoa religiosa que não é salva não faz isso. Ele quer Deus só por causa das coisas que Deus pode dar para ela nessa vida. Mas Jó não é um religioso não-convertido. Jó é um adorador-sofredor.
Se você estava pensando: “Poxa, Jó começou tão bem! Ele estava lidando tão bem com o sofrimento!”
O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! (Jó 1:21)
Mas Jó agora está tão confuso e tão frustrado. Onde foi parar aquela fé de Jó? A fé de Jó não foi parar em lugar nenhum. Ela continua no coração dele. No coração regenerado dele. No novo coração que Deus deu a ele.
Jó está aplicando essa verdade—O Senhor dá, O Senhor toma, bendito seja o nome do Senhor!—a ele mesmo. Ele fez essa declaração de adoração quando Deus tirou a vida dos filhos. Agora ele aplica a ele mesmo:
Ainda que ele me mate [—e tire a minha vida], nele esperei.
Qual é a explicação para você correr em direção a quem feriu você? O que faz uma pessoa ter certeza de que Deus está por trás daquela dor e, ainda assim, correr para o Causador da sua dor?
A explicação não é uma explicação natural. Pessoas naturais não vivem assim. A explicação é uma obra sobrenatural do Espírito de Deus. Deus abriu os olhos do seu coração agora você consegue ver quem Deus é.
CEGOS CURADOS
Quando o Espírito remove a nossa cegueira, nós podemos até ficar com os olhos embaçados por causa das lágrimas, nós podemos até ficar com os olhos fechados por um tempo por causa da dor, mas em algum momento, nós vamos abrir os olhos e ver—pela fé—aquele que nos amou e se entregou por nós naquela cruz.
• O cristão é alguém que foi tão cativado pela beleza de Deus,
• tão capturado por esse Deus de amor e poder;
• o cristão é aquele que foi tão consumido por Cristo, que nada nesse mundo consegue rasgar a união que ele tem com o seu Senhor.
A fé é um fenômeno tão resistente na alma de um cristão que nem a própria morte consegue remover essa realidade dele.
Ainda que ele me mate, nele esperei.
JÓ É UMA SOMBRA
Mas Jó é mais do que um exemplo para nós. Jó funciona também como uma sombra daquele que virias sofrer por nós. Jó aponta para Jesus.
Ouvir Jó dizendo: “Ainda que ele me mate, eu esperarei nele” é um eco do Senhor Jesus no Getsêmani. Com a alma ainda mais angustiada do que de Jó ou qualquer outro ser humano, prostrado no chão, suando sangue, Jesus disse:
— Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice! [O cálice da morte] Contudo [“Ainda que o Senhor me mate”], não seja como eu quero, e sim como tu queres (Mateus 26:39)—“Eu confiarei no Senhor”.
Ouvir Jó a ponto de ser morto por Deus e dizendo—“nele esperarei—é ouvir o Senhor Jesus no Getsêmani. O sofrimento e a fé de Jó nos preparam para receber o nosso Salvador que sofreu e esperou em Deus, ainda que Deus tenha tirado toda a vida dele.
É para esse Deus que Jó está olhando. É esse Deus que Jó quer seguir.
TRAJETO NÃO RETO
Mas a trajetória da fé não é uma linha reta. Não é uma escada que você sempre sobe. Essa trajetória se parece mais com uma montanha-russa.
Nesse ponto, Jó está mais no alto. Ele termina essa transição antes de falar com Deus com ousadia:
[18] Tenho já bem-encaminhada minha causa e estou certo de que serei justificado.
Jó está confiante de que será justificado. Ele tem uma defesa preparada para convencer Deus de que ele não deveria estar sofrendo dessa maneira.
É verdade que Jó está frustrado com Deus também, mas a maneira como ele fala com Deus é diferente da maneira como ele fala com os amigos. Existe uma reverência de crente no coração de Jó.
2. JÓ RECLAMA COM DEUS (13:20-14:22)
Os amigos de Jó ficam para trás. Agora Jó vai lidar diretamente com Deus.
Ele começa fazendo dois pedidos:
PEDIDOS INICIAIS (13:20-28)
[20] Concede-me somente duas coisas, ó Deus, e assim não me esconderei de ti:
[21] tira a tua mão de cima de mim, e não me amedronte o teu terror.
Jó vê Deus como se fosse um urso bravo que está preso junto com você em uma jaula. Você está constantemente com medo de ser atacado.
Mas ainda assim, Jó quer falar com Deus.
É como se o sofrimento, por lado, empurrasse você para longe de Deus, mas a sua fé puxa você de volta e você quer entender do Senhor o que está acontecendo. Jó tem mais pedidos:
[22] Interpela-me, e eu responderei; ou deixa-me falar, e tu responderás.
Jó vai começar a descer na Montanha-Russa da Esperança. Conforme ele começa a falar com Deus, ele começa a ir para baixo de novo.
Jó foi realmente contaminado pela teologia dos amigos. Ele não concorda que a explicação para todo sofrimento é que Deus está punindo aquela pessoa porque ela pecou. Ele rejeita essa teologia. Mas ao mesmo tempo, a mente dele às vezes opera dessa maneira:
[23] Quantas culpas e pecados tenho eu? Mostra-me a minha transgressão e o meu pecado. (...) [26] Pois decretas contra mim coisas amargas e me atribuis as culpas da minha mocidade.
No versículo 24, Jó pergunta para Deus:
[24] Por que (...) me consideras teu inimigo?
Jó vê a Deus como alguém que ficou anotando os pecados dele por todos esses anos e agora resolveu derramar tudo de uma vez nele.
O capítulo 13 termina com Jó se comparando (no final do versículo 28):
[28] (...) como a roupa que é comida pela traça.
Esse pensamento de se enxergar como alguém que é consumido rapidamente—como uma camisa sendo comida por traças—faz ele entrar em uma reflexão sobre a brevidade da vida no capítulo 14.
O capítulo começa com essa reflexão pessimista (mas realista também!) sobre a vida:
A BREVIDADE DA VIDA (14:1-12)
[1] O ser humano, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação. [2] Nasce como a flor e murcha; foge como a sombra e não permanece. (...)
[5] Visto que os dias do ser humano estão contados, o número dos seus meses está nas tuas mãos; traçaste limites além dos quais não passará.
A vida é tão curta! E tão imprevisível. Que o Senhor nos dê um coração sábio para contarmos nossos dias e não desperdiçarmos nosso breve tempo aqui.
Mas como Jó vê Deus de forma tão negativa, Deus não é alguém que cuida de nós, mas alguém que nos vigia para destruir. Como ele tinha chamado Deus no capítulo 7 de “Espreitador da Humanidade” (Jó 7:20). E, então, ele faz mais um pedido:
[6] Desvia dele o teu olhar, para que tenha repouso, até que, como o trabalhador, tenha prazer no seu dia.
Segura. A Montanha-Russa da Esperança de Jó agora vai acelerar. Mas vai acelerar para baixo. Ele usa a natureza para mostrar que até as árvores têm mais esperança que os humanos. Olha a comparação que ele faz:
[7] Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, voltará a brotar, e não cessarão os seus rebentos. [8] Se as suas raízes envelhecerem na terra, e o seu tronco morrer no chão, [9] ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova.
Não é verdade? Uma árvore é cortada. Fica o toco. Com o tempo, com água, a árvore “ressuscita”. Ela tem uma segunda vida.
Com o ser humano não é assim:
[10] Mas [mas, diferente das árvores], se alguém morre, fica prostrado; o ser humano expira e para onde vai? [11] Como as águas do lago evaporam, e o rio se esgota e seca, [12] assim o ser humano se deita e não se levanta; enquanto existirem os céus, não acordará, nem será despertado do seu sono.
Se o Senhor nos cortar a vida, acabou. Nossos dias nesse mundo acabaram para sempre. Neste ponto, Jó está com os olhos só na morte e nesse mundo. Jó não está olhando para o céu e para Deus como ele deveria.
A conclusão dele é: “O ser humano morre e acabou. Essa é a minha vida aqui. Viver desse jeito não é vida”.
Às vezes os crentes chegam nessa escuridão.
Mas a trajetória da esperança de Jó na Montanha-Russa ainda não terminou. Esse ponto tão baixo não é o fim. Jó começa a subir, de novo!
O Senhor ressuscita a esperança dele na ressurreição:
A RESSURREIÇÃO DA ESPERANÇA NA RESSURREIÇÃO (14:13-17)
[13] Quem dera [Ouça a esperança! Quem dera!] me escondesses na sepultura e me ocultasses até que a tua ira passasse! Quem dera me fixasses um prazo e depois te lembrasses de mim!
Jó não desistiu. Ele se desespera sem desistir. “Quem dera!” é a virada da montanha-russa para cima. Para a direção do céu. Para uma nova vida. Para a ressurreição.
Jó cria um cenário hipotético onde ele fica escondido na sepultura—morto, esperando a ira de Deus passar. A ira de Deus passa, e Deus se lembra de Jó, chama a Jó.
Como Jesus chamou Lázaro da sepultura: “Lázaro, venha para fora!” (João 11:43) e Lázaro se levantou e viveu de novo.
O cenário que Jó cria é mais real do que ele imagina.
[14] Quando alguém morre, será que volta a viver? Todos os dias da minha luta esperaria, até que viesse a minha mudança.
Essa palavra mudança poderia ser traduzida como renovação. A mudança de volta à vida—a minha ressurreição.
Veja se a experiência de Jó não se parece com a experiência de Lázaro saindo do túmulo com o chamado de Jesus:
[15] Tu me chamarias, e eu te responderia; terias saudades da obra das tuas mãos;
Vocês percebem o caráter pessoal dessas palavra: “TU ME chamarias, e EU TE responderia”. Isso é relacionamento pessoal com Deus. Isso é fé.
Me permitam fazer algumas perguntas pessoais para nós:
• Nós podemos dizer isso sobre o nosso relacionamento com Deus?
• Deus é para mim é um sistema religioso ou ele é o meu Pai, meu Deus, que me chama e eu respondo?
• Eu vou na igreja porque é a coisa certa a fazer no domingo? Ou por que eu amo a Deus e a Palavra dele e as pessoas que ele colocou na minha vida?
• Eu leio a Bíblia porque é simplesmente o meu dever ou porque eu amo o Deus da Bíblia e o Salvador Jesus que ela revela?
A fé é uma realidade espiritual pessoal. Se você não experimentou essa fé, vá até o Senhor peça para ele perdão, peça ajuda, e coloque sua fé no Cristo crucificado pelos seus pecados. É você não será nunca mais um pessoa natural.
O que Jó faz agora é impressionante. A montanha-russa está acelerando, mas agora na direção certa—para o alto, para o céu, para Deus—para a salvação. Jó está pregando o evangelho para ele mesmo!
O EVANGELHO DE JÓ
[16] e até contarias os meus passos e não levarias em conta os meus pecados. [17] A minha transgressão estaria selada num saco, e terias encoberto as minhas iniquidades.
• Segunda parte do versículo 16: Isso não é o evangelho? Deus não levando em contas os seus pecados porque o seu Rei já pagou por todos eles na cruz!
• Primeira parte do versículo 17: Isso não é o evangelho? Deus colocando a sua transgressão no saco gigante da graça e lançando-o no mar e o seu pecado vai parar no fundo do mar e aquele peso enorme da sua culpa não está mais sobre os seus ombros!
• Segunda parte do versículo 17: Isso não é o evangelho? Deus encobrindo as suas iniquidades com o sangue de Cristo, e porque agora cada milímetro da sua montanha de pecados está banhada de vermelho com o sangue de Cristo, tudo está coberto e pago e você está justificado diante do Juiz de toda a terra!
Jó pregando o evangelho para Jó—e para nós! Jó reconhece que o pecado é um problema. Jó não entende por que Deus está tratando ele dessa forma. Jó está contaminado pela teologia dos amigos, mas nisso Jó está certo, que:
• Mesmo que você tenha pecado, Deus é capaz de não levar em conta se você crê nas promessas de perdão em Cristo.
• Mesmo que você tenha pecado, Deus é capaz de selar sua transgressão, cobrir sua iniquidade, e você pode ficar na presença de Deus sem medo. Ele não vai destruir você porque ele já destruiu o seu pecado no corpo do Filho ele.
No caso de Jó, era um futuro certo. No nosso caso, é um passado certo. Mas de qualquer forma, seja você um crente do Antigo Testamento ou um crente do Novo Testamento, o lugar onde Deus lida com o seu pecado é o mesmo: a cruz de Cristo—a morte do Deus Filho no lugar.
Que lindo é ouvir Jó pregando o evangelho! É por isso que ele está com mais esperança. É por isso que ele está indo para o alto na montanha-russa: porque ele está pregando verdades sobre o que Deus fez e faz e fará por nós em Cristo Jesus.
A fé é um fenômeno tão resistente na alma de um cristão que nem a própria morte consegue remover essa realidade dele.
Mas a trajetória da fé não é uma linha reta. Jó despenca de novo. O carro da montanha-russa volta a descer, e a descer com força.
De novo, mais um “mas!” no início do versículo 18, e a direção do coração de Jó muda para baixo.
A MORTE DA ESPERANÇA DA RESSURREIÇÃO (14:18-22)
Deus me chamaria, Deus me perdoaria, Deus me salvaria, mas...
[18] Mas como o monte que desmorona e se desfaz, e a rocha que se move do seu lugar, [19] como as águas gastam as pedras, e as cheias levam o pó da terra, assim destróis a esperança humana.
Jó deprimido de novo.
[20] Tu prevaleces para sempre contra o ser humano, e ele passa; mudas o semblante dele e o despedes. [21] Os seus filhos recebem honras, e ele não sabe; são humilhados, e ele não percebe. [22] Ele sente as dores apenas de seu próprio corpo, e a sua alma lamenta apenas por si mesma.
Parecia que ele estava melhor. Mas de novo entraram esses pensamentos ruins sobre Deus e a vida e o mundo. E agora Jó não está mais pregando o evangelho para ele. Ele voltou a pensar em Deus como um Destruidor, não como um Salvador cheio de amor.
Isso explica por que ele está mal. Cristão, o que você pensa determina como você se sente.
Pensamentos sobre o perdão de Deus em Cristo vão fazer você subir—sua alma se elevar a Deus:
• Pensamentos sobre a vitória de Cristo sobre o mal e a morte,
• E a promessa de que você irá viver para sempre com o seu Senhor,
• E você, em breve, nunca mais irá pecar porque você está com seu Rei na glória—esse pensamentos levam você para o alto e você sobe na Montanha-Russa da Esperança.
Mas se você criar pensamentos em sua mente que não são verdadeiros — "Deus não se importa, minha vida sempre será assim, nada faz sentido” — você irá descer.
CONCLUSÃO
Mas evangelho significa boas-notícias. E a boa-notícia é que nenhum crente para no meio do caminho. Jó terminou o capítulo 14 no fundo. Mas esse não é o último capítulo da história dele.
O Senhor Jesus prometeu não deixar nenhuma ovelha para trás. Ele irá levar todas para casa. Ele disse:
De fato, a vontade de meu Pai é que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia (João 6:40).
O desejo de Jó de ser justificado e ressuscitado foi selado por aquele que morreu e ressuscitou. O mesmo que comprou a sua ressurreição, cristão.
Mas cristão, é muito importante você entender que a trajetória da sua vida—da sua fé e da sua esperança—é como uma montanha-russa.
Você vai para baixo e para cima. Às vezes você fica até de cabeça para baixo. Às vezes, de repente, sua vida dá uma virada para onde você nunca imaginou ser possível. Como a vida de Jó.
Mas tem mais um fato importante: assim como toda montanha-russa, se você se segurar e perseverar e esperar, você vai chegar no destino final. A corrida da fé, como seus altos e baixos, é sempre um movimento em direção à Jesus, nosso destino final.
Nem acontece tudo da maneira como você imaginou. Mas Deus irá levar você para o lugar que ele prometeu quando você se segurou a Cristo com fé e confiou o perdão dos seus pecados e toda a sua vida para ele.
(Ilustração adaptada de: Preachers Talk - A podcast by 9Marks & The Charles Simeon Trust: On Using Analogies As Illustrations (Ep. 99), 20 Nov 2025).
Ele vai ressuscitar você. Ele vai levar você para a casa.
Continue segurando nele com força pela fé porque ele não vai largar você.
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