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Jó 15-17: Minha Testemunha Está no Céu

  • Foto do escritor: Pastor Alex Daher
    Pastor Alex Daher
  • há 1 hora
  • 23 min de leitura

Série em Jó: Sofrimento Soberano 29 de Março de 2026 – IBJM


Não é ruim fazer as coisas só por obrigação? Fazer coisas que você não entende por que precisa fazer. Você não vê sentido naquilo.

 

• Crianças, se vocês não entendem por que estudar matemática, vocês podem até fazer o dever de casa, mas será se arrastando. Não será com o espírito certo.

• Adultos, se você não vê sentido no seu trabalho, você pode até se levantar de manhã e trabalhar porque você precisa, mas é só por obrigação. Muitas vezes, é o que você precisa fazer, mas é muito ruim viver assim.

• Se você não vê a razão de fazer aquilo, você pode até fazer por um tempo, mas assim que aparecer uma dificuldade, você vai parar.

 

Quando nós não vemos propósito no que está acontecendo, nós vamos acabar desistimos.

 

É por isso que a nossa luta para manter a esperança viva, especialmente durante o sofrimento, é uma luta por propósito, uma luta por sentido. “Eu estou passando por isso por uma razão”.

 

Jó tem alguns momentos de lucidez, mas ele volta a perder a esperança porque ele volta a perder o propósito. Ele não vê sentido em estar sofrendo tanto.

 

Jó está vivendo por obrigação. E para piorar a situação, os amigos de Jó só pioram a situação. Na explicação deles, para a vida de Jó voltar a fazer sentido, ele precisa confessar o pecado que ele está escondendo e se arrepender. O que nós sabemos que não é verdade.

 

SEGUNDA RODADA: ELIFAZ x JÓ

 

Nós vamos olhar para 3 capítulos hoje:

• No capítulo 15: Elifaz fala (e não ajuda).

• E nos capítulos 16 e 17, é a vez de Jó responder.

 

Ele continua sua busca por sentido.

 

Vamos começar com Elifaz. É a segunda vez que ele fala. Elifaz foi o primeiro dos 3 amigos de Jó que abriu a boca lá atrás, nos capítulos 4 e 5. Elifaz abre a segunda rodada do debate entre Jó e seus amigos.

 

ELIFAZ FALA (JÓ 15) 

A opinião de Elifaz sobre o que está acontecendo com Jó não mudou. Mas o coração mudou. O coração dele esquentou. Sabe quando, nos desenhos animados, uma pessoa está irritada e ela começa a ficar mais vermelha.

 

Esse é Elifaz. Ele vem para cima de Jó com mais força.

 

ACUSAÇÃO: VOCÊ É UM TOLO (15:1-16)

Elifaz quer provar para Jó que ele é um tolo.

 

[1] Então Elifaz, o temanita, tomou a palavra e disse:

[2] “Será que um sábio daria respostas vazias?

Será que encheria a si mesmo de vento leste?

[3] Argumentaria com palavras que de nada servem

e com razões das quais nada se aproveita?

 

Na resposta anterior de Elifaz, no capítulo 4, Elifaz começou mais educado, mais gentil, mais leve. Ele começou perguntando para Jó:

 

Você não tem confiança no seu temor a Deus? (Jó 4:6)

 

“Jó, espere que Deus irá trocar seu choro por riso. Deus irá trocar seu luto por dança. Espere, Jó”.

 

O tom foi melhor. Mas em vez de continuar a encorajar Jó a confiar no temor de Deus que ele tem, Elifaz perde a paciência e acusa Jó de não ter mais esse temor. Ele acusa Jó de ser um BLASFEMADOR:

 

1.     VOCÊ É UM BLASFEMADOR (VV. 4-6)

 

[4] Mas você destrói o temor de Deus

e diminui a devoção a ele devida.

[5] Pois o que você fala se inspira em sua iniquidade,

e você adota a língua dos astutos.

 

Em Gênesis 3, Satanás é descrito como uma serpente, “o mais astuto dos animais” (Gênesis 3:1). No versículo 6 ele coloca a culpa das acusações deles no próprio Jó:

 

[6] A sua própria boca o condena, e não eu;

os seus lábios dão testemunho contra você.”

 

Esse golpe foi forte, mas foi só o primeiro. Além de blasfemador, Elifaz chama Jó de arrogante:

 

2.     VOCÊ É ARROGANTE (VV. 7-10)

O espírito de Elifaz é: “Jó, quem você pensa que você é”.

 

[7] “Será que você é o primeiro homem que nasceu?

Por acaso, você foi formado antes dos montes?

[8] Será que você ouviu o conselho secreto de Deus

e detém toda a sabedoria?

 

A resposta que Elifaz espera de Jó é: “Não, eu não ouvi o conselho secreto de Deus. Eu não sei nada”. Mas Elifaz age como se ele tivesse ouvido e soubesse alguma coisa. Mas ele não ouviu o conselho secreto de Deus! Nós ouvimos porque nós lemos os primeiros capítulos de Jó.

 

Elifaz acusa Jó de ser arrogante, mas quem está sendo arrogante é ele.

 

No versículo 11, ele chama Jó de ingrato:

 

3.     VOCÊ É UM INGRATO (V. 11)

 

[11] “Você faz pouco caso das consolações de Deus

e das suaves palavras que dirigimos a você?

 

Elifaz só pode estar brincando: “suaves palavras”!? Ele massacra Jó—as palavras deles parecem mais tijolos sendo arremessados, e ele chama de “suaves palavras”. Elifaz não tem espelho em casa.

 

Essa é a maneira do autor do livro de Jó nos lembrar que nós precisamos de Deus e dos outros para perceber nossos pontos cegos—pecados que não estamos vendo, mas que se o Senhor nos der a humildade necessária, nós podemos reconhecer para tirar da nossa vida.

 

É como o pedaço de alface no dente. Como a maionese no bigode. Todo mundo que olha para você vê, mas você, não.

 

Que o Senhor nos ajude a ouvir as pessoas quando elas apontarem nossos pecados. E quando nós formos falar do pecado dos outros, que nossas palavras sejam realmente “suaves palavras”.

 

Além de blasfemador, arrogante e ingrato, Elifaz chama Jó de nervosinho.

 

4.     VOCÊ É UM NERVOSINHO (VV. 12-13)

 

[12] Por que você se deixa levar pelo seu coração?

Por que os seus olhos flamejam,

[13] para que você dirija contra Deus o seu furor?

E por que deixa que tais palavras saiam de sua boca?”

 

A última acusação que Elifaz tem para o seu amigo é:

 

5.     JÓ, VOCÊ É UM IMUNDO (VV. 14-16)

 

[14] “Que é o homem, para que seja puro?

E o que nasce de mulher, para ser justo?

[15] Eis que Deus não confia nem nos seus santos!

Nem os céus são puros aos seus olhos,

[16] quanto menos o homem,

que é abominável e corrupto,

que bebe a iniquidade como a água!”

 

Que palavras suaves para um amigo, Elifaz: abominável, corrupto, bebedor de iniquidade.

 

Esse é mais um exemplo dos amigos de Jó usando a verdade no lugar errado—com a pessoa errada. Não é completamente falso o que Elifaz está falando.

 

Por causa do pecado, a humanidade está corrompida. Isso é verdade.

É verdade também que Deus é absolutamente santo. O profeta Habacuque disse:

 

Tu és tão puro de olhos, que não podes suportar o mal nem tolerar a opressão (Habacuque 1:13).

 

E que as pessoas no mundo que não conhecem a Deus consomem pecado como água—eles vivem o tempo todo bebendo iniquidade—é verdade também. Elifaz está certo nessas coisas.

 

Mas pegar essas verdades—Deus é santo e o homem é impuro—e aplicar para Jó para explicar o sofrimento dele, isso não é verdade. Jó não está sofrendo porque ele é uma pessoa imunda aos olhos de Deus.

 

A opinião de Deus sobre Jó é que ele é um homem cheio de temor, piedoso e que ama a ele. Na mente de Deus, Jó foi lavado pelo sangue do Cordeiro que irá morrer por ele.

 

Isso não significa que Jó está respondendo perfeitamente ao sofrimento. Algumas coisas que os amigos de Jó estão falando contra Jó, eles até têm razão. Jó disse que Deus não está sendo justo com ele. Jó não pode pensar ou falar isso.

 

Mas agora, pegar uma resposta ruim de Jó nesse tempo de intenso sofrimento, esquecer as várias resposta de fé que Jó deu durante a vida dele, e declarar: “Jó, você é um blasfemador, arrogante, ingrato, nervosinho e imundo”, isso é errado. Muito errado. Isso é maldade.

 

VERDADEIRO, MAS INCOMPLETO

Se nós queremos viver com sabedoria nesse mundo—amando a Deus e amando as pessoas—nós precisamos ter essa categoria de um “crente incompleto”. (Hartley, Job, p. x)

 

Crentes que, às vezes (muitas vezes?), não respondem como deveriam. Sabe por quê? Porque todos nós estamos nessa categoria: “os incompletos”.

 

Simplesmente nos lembramos desse fato nos ajuda a termos misericórdia dos outros crentes incompletos.

 

Alguém que luta contra os pecados, que se arrepende, crê em Cristo, e continua. Alguém que se levanta e cai. E levanta e cai. E levanta e cai. Alguém que não é mais do que era—escravo da carne e do mundo, mas alguém que ainda não é o que um dia será, no céu.

 

Mas Elifaz ainda não terminou. A resposta de Elifaz para Jó tem duas partes. Nós vimos a primeira. Até o versículo 16, foi a ACUSAÇÃO contra Jó.

 

Do versículo 17 até o fim do capítulo, Elifaz tem a EXPLICAÇÃO para o sofrimento de Jó.

 

EXPLICAÇÃO: VOCÊ ESTÁ RECEBENDO O QUE VOCÊ MERECE (15:17-35)

 

Elifaz aqui está se juntando a Bildade, o segundo amigo. Elifaz usa a tradição — “o que os sábios anunciaram” — para defender a explicação dele.

 

INTRODUÇÃO: TRADIÇÃO (17-19)

 

[17] “Escute o que eu vou explicar;

vou contar-lhe o que eu vi,

[18] o que os sábios anunciaram, sem ocultar nada,

tendo-o recebido dos pais deles...

 

A estratégia de Elifaz é pintar um quadro aterrorizante da vida do ímpio para ver se Jó se convence de que ele precisa se arrepender e sair dessa vida de pecado para voltar a ter paz com Deus.

 

MEDO DE PERDER (20-22)

 

Ele descreve o ímpio como alguém que vive constantemente com medo de perder o que tem:

 

[20] “O ímpio é atormentado todos os dias,

no curto número de anos que se reservam para o opressor.

[21] O som dos horrores está nos seus ouvidos;

na prosperidade lhe sobrevém o destruidor.

[22] Não crê que possa escapar das trevas,

e sim que a espada o espera.

 

Nem todos aqueles que não amam a Deus vivem com esse medo de perder tudo, mas muitos, sim.

 

Deus colocou a eternidade no coração do homem (Eclesiastes 3:11). Em seus momentos de silêncio, quando eles desligam a televisão e a música e o celular, quando eles consultam sua consciência no travesseiro, vem esse desespero. Eles sabem que as coisas entre ele e Deus não estão certas.

 

Eles vivem com esse senso de tormento, horror, medo. Essa é a explicação de Elifaz para o sofrimento de Jó. Jó estava na prosperidade, mas ele perdeu tudo porque ele abandonou a Deus. Porque Jó se rebelou contra o Todo-Poderoso:

 

A RAZÃO DA DOR (25-26)

 

[25] [Essa é a razão:] Porque ele levantou a mão contra Deus

e desafiou o Todo-Poderoso;

[26] arremete contra ele obstinadamente,

protegido por um grosso escudo.

 

Nos versículos seguintes, Elifaz descreve o resultado daqueles que não amam a Deus—para dar uma indireta não tão indireta assim—em Jó e ver se ele se arrepende de uma vez. Elifaz usa exemplos do que aconteceu com Jó para cutucar o amigo (ou ex-amigo):

 

A CONSEQUÊNCIA DA IMPIEDADE (27-34)

 

• No versículo 28, ele fala de casas virando ruínas, como aconteceu com Jó.

• No versículo 29, ele escreve o ímpio indo da riqueza para a pobreza e perdendo seus bens, como aconteceu com Jó.

• No versículo 30, ele fala de chama de fogo e sopro de Deus. Fogo consumiu as ovelhas que Jó tinha e um vento forte derrubou a casa do filho mais velho de Jó em uma reunião de família e todos os filhos morreram.

 

Ele emenda essa descrição insensível com uma exortação para Jó:

 

[31] Que ele não confie na vaidade, enganando a si mesmo,

porque a vaidade será a sua recompensa.

 

Ele descreve de novo a destruição repentina da vida do ímpio e termina com uma descrição, não da vida, mas do coração daqueles que não confiam em Deus:

 

[35] Concebem o mal e dão à luz a iniquidade;

o coração deles só prepara enganos.”

 

A teologia de Elifaz não mudou em relação a primeira vez que ele falou, mas ele está mais negativo, mais irritado. Na primeira vez, ele passou um tempo enorme descrevendo a vida maravilhosa daqueles que amam a Deus para Jó.

 

De seis angústias ele [Deus] o livrará, e na sétima o mal não tocará em você.

Na fome ele livrará você da morte...

Saberá que a sua tenda está em paz; percorrerá as suas posses e não achará falta de nada. Em robusta velhice você descerá à sepultura... Veja bem! Isto é o que investigamos, e assim é. Ouça e medite nisso para o seu bem (Jó 5:19-20,24,26-27).

 

A teologia de Elifaz continua sendo uma teologia da prosperidade, mas agora ele inverteu. Em vez de falar das bençãos daqueles que amam a Deus, ele quer convencer Jó a se arrepender falando das maldições daqueles que não amam a Deus.

 

O que vocês acham da teologia de Elifaz?

 

“Os justos serão recompensados e os ímpios serão punidos”.

 

É verdade? Eu posso criar um problema, e depois nós tentamos resolver?

 

ELIFAZ E SALOMÃO

O problema é o seguinte: existem muitas passagens na Bíblia que concordam com a teologia de Elifaz. A teologia de Elifaz está na Bíblia. Por exemplo (Talbert, Beyond Suffering, 112-3):

 

Provérbios 12:21—Nenhuma desgraça sobrevirá ao justo, mas os ímpios, o mal os apanhará em cheio.

 

Não parece Elifaz falando? Mas é Salomão em sua sabedoria. Mais um:

 

Provérbios 10:27—O temor do Senhor prolonga os dias da vida, mas o tempo dos ímpios será abreviado.

 

O que esse provérbio está dizendo é que temer a Deus faz uma pessoas ter uma vida mais longa, mas os ímpios morrem antes.

 

Parece que Salomão concorda com os amigos de Jó. Mas só parece. Salomão não concorda.

 

PROVÉRBIOS SÃO PROVÉRBIOS, NÃO PROMESSAS

 

Provérbios descrevem o que geralmente acontece nesse mundo, não o que sempre acontece, sem exceção. Provérbios são verdades gerais, não promessas. Eles dizem—de forma bem resumida—o que geralmente acontece, mas não é a intenção de Salomão e de Deus descrever todas as situações e exceções em uma frase.

 

É por isso que o livro de Jó e de Eclesiastes são tão importantes para nos dar sabedoria, junto com Provérbios e Salmos. Jó e Eclesiastes nos lembram que a vida é cheia de exceções. E mistérios.

 

Essa interpretação equilibrada que os amigos de Jó não tem.

 

Em um sentido, ler a Bíblia é como fazer um bolo. Você precisa trazer todos os ingredientes necessários na quantidade necessária para dar certo. Se você usar farinha, ovo, açúcar, mas deixar o fermento de fora, o bolo não será bem um bolo.

 

Praticamente todas as heresias—os ensinos falsos da Bíblia—são fruto de alguém que pegou uma doutrina e sem incluir outros ingredientes doutrinários necessários, acabou chegando a conclusões falsas.

 

TENHA CERTEZA DE QUE VOCÊ PODE ESTAR ERRADO

Nós podemos aprender uma coisa com Elifaz. Uma coisa que Elifaz nem considera. É que nós podemos estar errados.

 

Elifaz está batendo o pé com força. Jó acabou de mostrar no capítulo anterior que existem situações em que aqueles que amam a Deus sofrem e aqueles que ignoram a Deus se dão bem.

 

Mas entrou por um ouvido e saiu pelo outro e Elifaz nem considerou o que Jó disse. Ele simplesmente repetiu a opinião dele com mais agressividade. Essa estratégia pode funcionar em um debate entre políticos, mas não funciona se nós queremos amar as pessoas e glorificar a Deus.

 

Uma coisa Elifaz nos ensinou pelo mal exemplo: para aplicar a Palavra de Deus a nossa vida, nós precisamos usar os ingredientes doutrinários necessários para o bolo no final nos fazer bem.

 

Jó ouviu o que Elifaz disse. Agora é a vez de Jó falar.

 

JÓ FALA (JÓ 16-17) 

Nós vamos dividir a resposta de Jó em 4 partes: ACUSAÇÃO, EXPLICAÇÃO, CLAMOR E TOALHA.

 

Nas primeiras duas partes, Jó faz a mesma coisa que Elifaz. Jó tem uma ACUSAÇÃO e uma EXPLICAÇÃO. Mas tanto a acusação quanto a explicação de Jó são diferentes.

 

ACUSAÇÃO: VOCÊS SÃO UNS TORTURADORES (16:1-6)

Elifaz acusou Jó de ser um blasfemador. Jó devolve e acusa Elifaz de ser um torturador.

 

[1] Então Jó respondeu:

[2] “Tenho ouvido muitas coisas como estas.

Todos vocês são consoladores que só aumentam o meu sofrimento.

 

Dentro dessa acusação de Jó, o assunto desses 6 versículos é o consolo que Jó tanto quer e tanto precisa. O tema do consolo, que apareceu no primeiro ciclo de conversas, volta.

 

Se tem uma coisa que nos ajuda a lidar com a dor é o consolo de Deus através dos amigos. Você já foi abençoado assim. Alguém levantou você do chão com palavras.

 

Mas o consolo que Jó tanto quer e precisa, os amigos dele não oferecem. No versículo 2 ele chama os amigos de consoladores “miseráveis” (ESV, Job 16:2)—“que só aumentam o sofrimento”.

 

Mas com o Espírito Santo em nós, nós podemos ser consoladores misericordiosos, não miseráveis. E uma das maneiras em que nós podemos unir nosso coração aos nossos irmãos é nos colocando no lugar do outro. É o que Jó fala no versículo 5:

 

[5] Poderia fortalecê-los com as minhas palavras,

e a consolação dos meus lábios abrandaria a dor de vocês.

 

Gastar alguns segundos fazendo esse exercício de troca—se colocando no lugar do outro—nos ajuda na direção de sermos consoladores misericordiosos, não miseráveis:

 

E se fosse eu que estivesse com câncer...

E se fosse eu que tivesse perdido minha mãe ou meu pai...

E se fosse eu que tivesse sido tratado dessa maneira...

E se fosse eu que tivesse perdido o emprego, perdido o casamento, perdido a família...

 

E assim nossas palavras, com a força do Espírito, pode ser suaves palavras que consolam.

 

Como Elifaz fez, depois da acusação, Jó tem uma explicação. Uma explicação para o sofrimento dele.

 

A explicação de Elifaz para a dor de Jó é o pecado de Jó. A explicação de Jó para a dor dele não é o pecado dele. É o Deus dele.

 

Deus é a causa da minha dor.

 

EXPLICAÇÃO: A RAZÃO DA MINHA DOR NÃO É O MEU PECADO; É O MEU DEUS (16:7-14)

Por um momento, Jó para de falar com seus amigos, olha para o céu e fala com Deus:

 

PARA DEUS (7-8)

 

[7] “Na verdade, esgotaste as minhas forças;

tu, ó Deus, destruíste toda a minha família.

[8] Testemunha disto é que me deixaste enrugado;

a minha magreza já se levanta contra mim e me acusa cara a cara.”

 

Para Jó, Deus é a causa da dor dele. E é com Deus que Jó quer lidar e falar e chorar.

 

Deus destruiu a família dele e deixou ele tão magro por causa dos tumores que ele nem mais parece quem ele é.

 

Mas diferente do que Jó fez antes, Jó não fala muito tempo com Deus. Dois versículos: 7 e 8. A partir do versículo 9, Jó volta a falar com os amigos dele.

 

PARA OS AMIGOS SOBRE DEUS (9-14)

 

[9] “Na sua ira me despedaçou e me perseguiu;

rangeu os dentes contra mim

e, como meu adversário, aguça os olhos.

(...)

[11] Deus me entrega aos ímpios

e me faz cair nas mãos dos perversos.

 

Jó gasta menos tempo falando com Deus (talvez porque Deus não esteja respondendo), mas apesar de não estar falar com Deus, vocês percebem qual é o assunto de Jó?

 

Quem Jó acha que despedaçou a ele “na sua ira”? E persegue a ele? E range dos dentes contra ele? E age como um adversário? Deus.

 

Jó pode até ter parado de falar com Deus, mas ele continua falando sobre Deus.

 

Um cristão, mesmo na dor, mesmo quando ele pensa que Deus está tratando ele mal, o coração dele é puxado para Deus.

 

Mas os pensamentos dos crentes sobre Deus nem sempre são certos:

 

• Jó está certo em entender que Deus é soberano sobre o sofrimento dele.

• Mas Jó está errado em concluir que Deus está irado, rangendo os dentes e perseguindo Jó como um adversário. O adversário é Satanás, não Deus.

 

A mente de Jó não está operando bem. Ela está cheia de imagens negativas sobre Deus.

 

Jó imagina Deus como um animal feroz e faminto—um leopardo escondido na mata, esperando a hora de dar o bote, agarrar a gazela pelo pescoço e sacode ela até ela cair morta.

 

[12] Eu vivia em paz, porém ele me esmagou;

pegou-me pelo pescoço e me despedaçou;

ele fez de mim o seu alvo.

 

• No versículo 13, ele imagina Deus como um flecheiro inimigo.

• No versículo 14, um guerreiro que vem correndo na direção ele com violência.

 

[14] Ele me fere com golpes e mais golpes;

arremete contra mim como um guerreiro.”

 

Se Elifaz acusou Jó de ser um blasfemador.

E se Jó acusou Elifaz de ser um torturador.

Agora, Jó acusa Deus de ser um destruidor. Um despedaçador de saúde, família e vida.

 

Se Jó fosse um blasfemador e ingrato e imundo como Elifaz está dizendo, Jó entenderia. Deus está sendo justo. Deus está punido um homem que está se rebelando contra ele. Essa é a tese dos amigos de Jó.

 

Mas Jó tem certeza de que ele é inocente. É por isso que Jó está tão atordoado e confuso.

 

TRANSIÇÃO: EU SOU INOCENTE! (16:15-17)

 

[16] O meu rosto está vermelho de tanto chorar,

e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte,

[17] embora não haja violência nas minhas mãos,

e seja pura a minha oração.”

 

Jó não está dizendo que ele não tem nenhum pecado. Jó está dizendo que ele não é o ímpio, arrogante e ingrato que os amigos estão dizendo que ele é.

 

“Eu confio no Senhor. Eu amo o Senhor. Eu temo a Deus e me desvio do mal. Mas eu sou tratado por Deus como se eu fosse um pecador horrível”.

 

A explicação de Jó para a dor dele não é o pecado dele. É o Deus dele.

 

UMA MISTURA CONFUSA

A mente de Jó é como liquidificador que jogou verdades e mentiras dentro, bateu e agora tudo está misturado. Alguns ingredientes são bons—Deus é soberano. É para Deus que Jó tem que ir. Esse ingrediente faz parte da receita para lidarmos com a nossa dor.

 

Mas Jó jogou dentro do liquidificador essa ideia de que Deus está injustamente irado com ele, que Deus está sendo cruel. Esse ingrediente está envenenando a alma de Jó. Sempre que nós fazemos isso, o resultado não é bom.

 

O resultado é desânimo, depressão, amargura, ansiedade, medo e muitos outros males.

 

Mas algo lindo de se ver na vida de um cristão como Jó é que ele sabe para quem ele tem que ir. Existe um sussurro dentro do crente que diz para ele mesmo:

 

— Senhor, para quem iremos? O senhor tem as palavras da vida eterna, e nós temos crido e conhecido que o senhor é o Santo de Deus (João 6:68-69).

 

Às vezes, você vai correndo para Jesus. Às vezes, você vai mancando. E demora mais tempo para chegar nele. Mas você vai.

 

O cristão pode, às vezes, ter explicações erradas para a dor dele. Mas um instinto que o Espírito Santo colocou nele e que ninguém pode tirar é esse:

 

“Eu que quero falar com Deus, eu quero ouvir Deus, eu quero Deus”.

 

Por causa desse instinto, Jó não se contenta em explicar. Jó começa a clamar. Ele vai da explicação para um clamor:

 

O CLAMOR (16:18-17:5) 

Como o sangue de Abel que foi derramado injustamente e ainda clama por justiça (Gênesis 4:10), Jó não quer que a morte dele seja em vão (Harley, The Book of Job, 263).

 

[18] “Ó terra, não cubra o meu sangue,

e não haja lugar em que se oculte o meu clamor!

 

“Terra, quando eu morrer, proclame a minha inocência pelo mundo!”

 

Mas Jó sabe que a terra não tem poder para fazer nada. Quem tem poder para responder e agir é o Deus de toda a terra. Prova que Jó sabe disso, é o que ele fala agora:

 

[19] Já agora a minha testemunha está no céu,

e nas alturas se encontra quem advoga a minha causa.

 

O SOLUÇO DA GRAÇA 

Essa maneira de falar é a maneira de alguém que tem confiança. Nós estamos vendo—ou ouvindo—aqui uma faísca de esperança. O fogo da fé de Jó pode não estar queimando a todo vapor, mas tem uma brasa naquele coração.

 

Que mistério e que maravilha é o coração do homem e o Espírito de Deus. Em um minuto, o crente Jó está olhando para Deus como um flecheiro, um guerreiro, um adversário, um destruidor.

 

No outro minuto, ele vem com essa declaração:

 

[19] Já agora a minha testemunha está no céu,

e nas alturas se encontra quem advoga a minha causa—“meu advogado”.

 

Bem-vindo ao mundo real. Ao mundo real dos crentes reais com sofrimentos reais. Sim, em alguns momentos, em alguns minutos, tudo na vida parece escuro, seco, sem vida.

 

Mas em outros minutos, o Espírito de Deus abre uma fresta do coração do crente para que entre luz—e a esperança volta. Você está lendo um Salmo, cantando uma música, ouvindo a pregação da Palavra e sua fé se levanta do chão e se agarra em Jesus de novo.

 

Esses momentos podem parecer um soluço. De repente, aparentemente do nada, ele surge dentro de você e você não consegue controlar: você confia, você adora, você louva. É o soluço da graça. Parece que foi do nada, mas não foi. Foi ele. Foi Deus.

 

• Que isso seja um encorajamento para você, cristão deprimido e sem esperança.

• Ou você que está ansioso e com medo e com dificuldade de confiar no Senhor.

• Ou você que está apático e triste por não ver mais sua fé queimando como antes.

 

O que você deve fazer é continuar clamando e orando e lendo e ouvindo. Continuar indo até ele, mesmo que você esteja mancando. Abanando o seu coração como um carvão em brasa até o fogo voltar a pegar.

 

O Espírito de Deus pode fazer um pavio fumegando voltar a queimar. Hoje. Agora.

 

Mas nós pulamos uma pergunta importante:

 

DE QUEM ELE ESTÁ FALANDO?

 

[19] Já agora a minha testemunha está no céu,

e nas alturas se encontra quem advoga a minha causa.

 

De quem Jó está falando? Quem é essa testemunha — esse advogado?

 

O tema da justificação—de quer ser declaro justo por Deus—que apareceu no primeiro ciclo volta.

 

Quem é essa Pessoa que irá defender Jó no tribunal de Deus e provar que ele é um crente verdadeiro, um homem justificado, um adorador do Senhor e não um ímpio como os amigos de Jó acusam, nem um interesseiro como Satanás acusa.

 

A Testemunha—o Advogado—que irá defender Jó é Deus. Deus é aquele que está no céu, nas alturas.

 

• Mas Jó não disse há pouco tempo que Deus irá declarar a ele culpado (Jó 9:20)?

• Ele não disse que Deus está contra Jó (Jó 10:2)?

• Ele não disse que Deus quer matá-lo?

 

Como agora ele acha que Deus irá defendê-lo? Deus irá testemunhar contra Deus?

 

Bem-vindo ao mundo real. Ao mundo real dos crentes reais com sofrimentos reais. Sim, os crentes têm momentos de escuridão e eles não conseguem ver a Deus como deveriam.

 

Mas quando a luz entra, quando o Espírito Santo abre uma fresta da porta do coração e entra glória com poder, quando ele vê um pouco da majestade do Rei, isso é suficiente para ressuscitar a esperança nele e Deus muda de destruidor para Defensor.

 

Mas me permita dizer mais: bem-vindo também ao evangelho—o evangelho real dos crentes reais em um mundo real. Jó 16:19 é a mensagem da cruz.

 

Não deveria ser uma surpresa para nós ouvirmos um crente como Jó dizer que a esperança dele é que Deus defenda Jó de Deus. Esse não é o evangelho?

 

O Deus Pai envia o Deus Filho para ser nosso Advogado no tribunal de Deus.

 

1João 2:1-2—Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Mas, se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados.

 

Na cruz, o Deus Filho defende a causa do povo de Deus diante de Deus. O Deus Filho testemunha a nosso favor. O sangue dele nos defende. O sangue se levanta para testemunhar a nosso favor no tribunal.

 

DIANTE DO TRONO DE DEUS NOS CÉUS 

Em 1863, uma jovem de 22 anos escreveu um hino sobre essa verdade libertadora e gloriosa: existe alguém no céu que intercede por nós. Como o versículo 19 diz: “Já agora”.

 

O título que ela deu para o hino foi: “O Advogado”. Nós cantamos esse hino na IBJM. Por favor, ouça essa letra:

 

Diante do Trono de Deus nos céus

Tenho perfeita intercessão

Do sumo sacerdote o Amor

Que advoga em meu favor

 

Meu nome em suas mãos está

Escrito em seu coração

E enquanto no céu Ele estiver

Seguro ali eu estarei

 

Se sou tentado a desviar

E vejo a culpa que há em mim

Contemplo os céus e vejo então

Aquele que morreu na cruz

 

O justo Salvador morreu

Pra minha vida libertar

Satisfazendo o Santo Deus

Que me perdoa ao ver Jesus

 

Vejo o Cordeiro que ressurgiu

Sua justiça e perfeição

O Grande Imutável Eu Sou

O Rei da Graça, o Rei dos Céus

 

Unido a Ele não morrerei

Comprado por seu sangue fui

Minha vida oculta em Cristo está

Em Cristo meu Deus, Salvador

Em Cristo meu Deus, Salvador.

 

Cristão, que Testemunha, que Advogado nós temos no céu. Quando a culpa dos nossos pecados nos derrubar, seja porque Satanás nos acusa ou pessoas nos acusam ou nossos próprios pensamentos nos acusam, existe um lugar—uma Pessoa—que nós podemos ir que irá nos defender “diante do trono de Deus nos céus” usando a morte dele em nosso lugar.

 

Se você ainda não tem um Advogado para defender você no dia em que todos nós teremos que comparecer diante do trono de Deus nos céus, você precisa contratar o Senhor Jesus Cristo.

 

Quem de nós poderá dizer para Deus: eu nunca pequei, eu mereço o céu?

 

Mas aqui vai a parte importante: Jesus não aceita nada em troca—ele não aceita dinheiro, nem boas ações. Você contrata a ele pela graça por meio da fé. O que ele exige é que você confie nele. E em troca ele dá para você a justiça dele, o perdão dele e no dia do julgamento, ele vai defender você diante do Juiz.

 

Jó está certo. O Advogado é o próprio Deus. Ainda não estava claro para Jó naquele momento como está claro para nós agora com o Novo Testamento e a vinda do Senhor Jesus, mas os instintos de Jó são os instintos de um crente.

 

Mas a esperança de Jó não durou muito tempo. O capítulo 16 termina e o capítulo 17 começa com Jó vendo a morte vindo na direção dele para buscá-lo:

 

Jó 16:[22] Porque dentro de poucos anos

eu seguirei o caminho de onde não voltarei.”

 

Capítulo 17:[1] O meu espírito vai se consumindo,

os meus dias vão se apagando,

e só tenho diante de mim a sepultura.

 

Ele até volta a falar com Deus, em mais segundo soluço da graça:

 

VOLTA A DEUS (17:3-5)

 

[3] “Dá-me, ó Deus, um penhor,

e sê o meu fiador diante de ti;

quem mais haverá que possa se comprometer comigo?

 

Senhor, me dá uma garantia (um penhor) que eu não estou esperando o Senhor à toa. Me promete que o Senhor irá me justificar.

 

Mas o clamor a Deus dura pouco. De novo. Ele vai só tem o versículo 5.

 

No versículo 6 nós temos outro “mas” que derruba Jó de vez no chão.

 

No boxe, quando o treinador vê que o boxeador dele está apanhando tanto sem conseguir se defender, ele joga a toalha no chão no meio do ringue para avisar o juiz: nós desistimos. Nós aceitamos a derrota.

 

Jó não aguenta mais apanhar e, no desespero, ele joga a toalha também.

 

Acusação, Explicação, Clamor e, por último:

 

TOALHA (17:6-16)

 

Do versículo 6 ao 10 ele volta a falar da dor:

 

COM DOR (6-10)

 

[6] Mas ele me pôs por provérbio dos povos;

tornei-me como aquele em cujo rosto se cospe.

 

É impossível ler esse versículo e não pensar no Senhor Jesus sendo cuspido pelos judeus e romanos antes de ser crucificado. Sem Jó saber (mas Deus sabendo), o sofrimento de Jó nos prepara para o Salvador-Sofredor mais inocente que Jó.

 

[7] Os meus olhos se escureceram de mágoa,

e todos os meus membros são como a sombra.

 

Jó fica pensando mais na dor e menos no Defensor que ele tem, e isso leva Jó a cair de novo no fundo do poço:

 

SEM ESPERANÇA (11-16)

 

[11] “Os meus dias passaram,

e fracassaram os meus planos,

os desejos do meu coração.

 

Deus rasgou os planos de Jó. A família dele foi destruída, os bens destruídos, a saúde destruída. Jó sabe que precisa de esperança, mas ele não acha. Ele só consegue ver a morte. A morte é a família dele:

 

[13] Mas, se eu aguardo a sepultura por minha casa;

se faço a minha cama nas trevas;

[14] se digo à cova: ‘Você é o meu pai’,

e aos vermes: ‘Vocês são a minha mãe e a minha irmã’,

[15] onde está, então, a minha esperança?

Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?

[16] Ela descerá até as portas do mundo dos mortos,

quando juntos descansarmos no pó.”

 

Dizem que a esperança é a última que morre. Jó termina dizendo: “a minha esperança morreu”. Parece que dessa vez Jó desistiu.

 

Mas tem coisas que os crentes sofrendo falam que nós não deveríamos anotar. Algumas coisas que eles falam, nós deveríamos deixar para lá.

 

CONCLUSÃO 

Nós perdemos a esperança quando nós não vemos razão no sofrimento. Jó não vê sentido em sofrer desse jeito sem ouvir uma resposta de Deus. É por isso que ele joga a toalha.

 

Você provavelmente teve seus dias em que você jogou a toalha. Ou ficou com vontade de jogar.

 

Mas o Espírito Santo nunca deixa um santo desistir. Um crente (como Jó) pode até jogar a toalha. Mas ele não vira as contas e vai embora. Ele fica olhando para toalha. Ele fica se perguntando se ele não deveria pegar a toalha do chão, jogar para fora do ringue e voltar para o combate da fé. Ele fica se perguntando se vale a pena não desistir.

 

Nós sabemos a resposta: “Vale”. É claro que vale a pena não desistir.

 

Com uma Testemunha no céu como Jesus, como esse um Advogado e Defensor como o Senhor Jesus, vale a pena. Vale a pena continuar buscando a Deus. Vale a pena continuar clamando e buscando o Senhor.

 

Quando nós olhamos para ele—para o sofrimento do Senhor Jesus e o amor dele, a vida faz sentido. Até no sofrimento. Com ele, a vida vale a pena.


Igreja Batista Jardim Minesota

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