Jó 31: O Último Apelo
- Pastor Alex Daher

- há 2 horas
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Série em Jó: Sofrimento Soberano 31 de Maio de 2026 – IBJM
Se você tivesse a chance de fazer um pedido (só um pedido!) a Deus, o que você pediria? Você pode pedir qualquer coisa (o que você quiser!), qual seria o seu pedido a Deus?
Riqueza? Saúde? Paz?
A pergunta — “qual seria o seu pedido a Deus?” — funciona como um raio-X da nossa alma. Essa pergunta revela o que mais arde em nosso coração.
O que Jó mais quer de Deus é a confirmação da salvação. O pedido de Jó para Deus—o último apelo dele—é: “Senhor, me responde e declara que eu sou um homem justificado (inocente!), que eu sou um crente verdadeiro e que todas as acusações contra mim são falsas!”.
Esse não é um bom pedido? Esse não é o melhor pedido? Ouvir de Deus que nós temos um relacionamento com Deus! O que pode ser mais importante nessa vida do que saber que está tudo certo entre mim e Deus?
O raio-X do coração de Jó revela que o coração dele não é mais de pedra. É um coração de carne, como a profecia de Ezequiel diz. Mas o raio-X do coração de Jó revela algumas manchas. Como o nosso raio-X também mostraria.
A maneira como Jó fala com Deus, algumas vezes, é ruim. Às vezes, bem ruim. Alguns pensamentos de Jó sobre Deus estão errados. E por isso, Deus irá corrigi-lo daqui a alguns capítulos. Mas é tão claro que Jó ama a Deus.
Jó é um crente lutando para confiar em Deus vivendo em um mundo cheio de maldade, mistério e dor. Cada de um nós está na mesma luta. Nós sabemos como a luta vai terminar e quem vai ganhar. Por isso, você continua lutando.
Hoje é a última vez que o lutador da fé Jó irá falar. Vejam o final do versículo 40:
[40] (...) Fim das palavras de Jó.
No final do livro, depois que Deus finalmente fala, Jó faz breves comentários. Mas esse é o último discurso dele. Os capítulos 29 e 30 funcionam como uma preparação para o capítulo 31.
É agora que Jó vai deixar claro o que ele espera de Deus. O capítulo 31 é o último apelo de Jó para Deus.
A estrutura e as palavras que Jó usa nesse capítulo têm um propósito: Jó quer criar em nossa mente o cenário de uma sala de tribunal.
Do lado da acusação, 3 homens estão sentados: Elifaz, Bildade e Zofar. Eles já apresentaram todas as suas provas contra Jó. Eles têm certeza de que Jó é um hipócrita, e que ele precisa se arrepender. O parecer deles é: Jó é culpado de grande pecado. É por isso que ele está passando por esse grande sofrimento.
Jó (o acusado) ouviu tudo. E Jó tem certeza de que ele é inocente de todas acusações. Agora ele vai se levantar da cadeira de réu para falar. É a última oportunidade que ele tem para se defender.
Ele tem sido acusado pelos amigos injustamente. E o que é pior: ele sente que Deus está atacando a ele injustamente com tanto sofrimento.
Jó vai apresentar sua declaração oficial de inocência e esperar o Juiz (Deus) se pronunciar. Mas “esperar” parece uma palavra leve demais. Jó não quer mais esperar. Jó cansou de esperar. Jó cria uma situação para forçar Deus a falar.
A ousadia de Jó, especialmente no final desse apelo, chega a ser desconfortável. É o momento mais tenso do livro até agora.
Jó estrutura sua fala em 3 partes:
• Ele tem uma abertura do versículo 1 a 4.
• Depois ele faz uma série de (o que nós vamos chamar de) votos de inocência.
• E no final é como se ele pegasse esses votos de inocência que ele fez, escrevesse em um documento, assinasse e entregasse nas mãos do Juiz—nas mãos de Deus—para ele dar o veredito: culpado ou inocente.
3 partes: (1) ABERTURA do APELO, (2) VOTOS de INOCÊNCIA e (3) ENTREGA do DOCUMENTO
1. ABERTURA DO APELO (vv. 1-4)
Jó 31:[1] Fiz uma aliança com os meus olhos: de não olhar para uma virgem.
[2] Do contrário, qual seria a minha porção do Deus lá de cima,
e que herança receberia do Todo-Poderoso desde as alturas?
[3] Por acaso, não é a perdição para o ímpio,
e a desgraça para os que praticam a maldade?
[4] Será que Deus não vê os meus caminhos
e não conta todos os meus passos?
Um homem que teme é o Senhor é um homem que carrega esse senso da presença de Deus para onde quer que ele vá. Sozinho em casa e trancado em um quarto. Ou na sala de aula ou no trabalho. Uma pessoa que teme o Senhor vive sempre diante do Senhor. Jó é assim.
Pode parecer um pouco estranho ele começar falando da pureza dele no versículo 1. Jó começa dizendo que fez uma aliança para não olhar para uma virgem, ou, como a versão anterior da tradução da Almeida dizia: “não fixar os olhos numa donzela”, para mostrar o nível de compromisso que ele tem com a santidade—um compromisso que envolve todo o ser dele: o comportamento E os sentimentos E os pensamentos.
O conceito que Jó tem de piedade casa com o que conceito que o Senhor Jesus tem. Jesus disse no Sermão do Monte:
— Vocês ouviram o que foi dito: “Não cometa adultério.” Eu, porém, lhes digo: todo o que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela no seu coração (Mateus 5:27-28).
Santidade não é só o que você não faz com o corpo. Santidade inclui o que você faz com seu coração: seu ser interior.
Nossa mente é como um ninho. Quando chocamos os ovos do pecado tempo suficiente—pensamentos de pecado—nossos sentimentos esquentam e aquecem os ovos daquele pecado—seja sexual ou pecados de outra natureza—raiva, ganância, vaidade. É só uma questão de tempo: o ovo do pecado vai esquentar o suficiente no coração para quebrar e nascer o pecado no comportamento.
Essa é a vida do pecado que gera em nós morte: Ele é concebido nos pensamentos, considerado nos sentimentos e consumado no comportamento.
Jó começa com esse exemplo para mostrar que a pureza moral dele não é superficial. Ele se entrega a Deus com o mais profundo do seu ser.
Terminada a abertura, Jó entra em seus VOTOS de INOCÊNCIA.
2. VOTOS de INOCÊNCIA (vv. 5-34)
A formato que Jó dá para esses votos geralmente é:
Se eu cometi tal pecado,
então, eu mereço o tal julgamento.
(Às vezes ele dá também a explicação de por quê o julgamento é merecido).
Porque isso seria um pecado digno de punição.
Os votos de inocência são também declarações de automaldição:
Se eu vivi nesse pecado,
Então que Deus me puna!
Porque é o que eu mereço.
A largura e a profundidade da piedade de Jó é impressionante. D. A. Carson, um escritor cristão, e certamente um homem de Deus, disse que ele gostaria de poder falar para Deus pelo menos metade das coisas que Jó fala (Talbert, Beyond Suffering, 158).
Ou Jó realmente tem uma consciência limpa e é muito piedoso, ou ele é um hipócrita da pior qualidade. Não existe outra alternativa.
DESAFIAR, NÃO DESANIMAR
Que o Senhor use esses votos de Jó, não para nos desanimar (essa santidade é impossível!), mas para nos desafiar—para gerar em nós um desejo renovado de buscar mais o Senhor.
Jó é pó, como nós. Cada milésimo de segundo que ele viveu para a glória de Deus, ele fez isso pelo Espírito de Deus. Sem Cristo, nós não podemos fazer (João 15:5). Com ele, nós podemos viver para ele.
Vamos a lista: são 10 pecados. E para cada pecado, Jó está dizendo: “Eu não vivia assim!”
Primeiro pecado:
1. FALSIDADE (vv. 5-6)
[5] Se andei com falsidade ou se o meu pé se apressou para o engano
[6] — que Deus me pese numa balança justa e conhecerá a minha integridade!
Jó está dizendo que ele não tem uma vida dupla. Ele tem uma vida inteira—ele tem “integridade”.
Ser íntegro não é ser sem pecado. Ser íntegro é ser inteiro—é ser um só: é não ter duas vidas: uma pública e uma outra (diferente) privada. Jó ama a Deus em público e ele ama a Deus no privado.
A partir do segundo voto, Jó passa a ser mais específico. O segundo pecado que Jó não abraçou é a:
2. COBIÇA (vv. 7-8)
[7] Se os meus passos se desviaram do caminho,
se o meu coração segue os meus olhos, [se ele cobiça tudo o que ele vê]
e se alguma mancha se apegou às minhas mãos,
[8] então [julgamento] que outros comam o que eu semeei,
e que seja arrancado o que se produz no meu campo.
É como se cada ato do pecado sujasse nossas mãos. Jó está mostrando as mãos dele e dizendo: “Pode olhar, Senhor. Não tem nenhuma mancha. Minhas mãos estão limpas. Eu não vivo cobiçando o que eu não tenho, e pecando para ter”.
A cobiça é como a serpente sussurrando uma mentira no nossos ouvidos: “Deus não deu a você o suficiente”. E Jó está dizendo: “Eu não ouço a serpente. Eu ouço a tua Palavra, Senhor”.
Crente, você tem Cristo. Você já tem o suficiente. Você tem a Pessoa que você precisa para você ser a pessoa mais feliz do mundo.
Terceiro:
3. ADULTÉRIO (vv. 9-12)
Jó é fiel à aliança que ele fez com a esposa:
[9] Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher, [começa no coração]
se fiquei rondando a porta do meu próximo,
[10] então [o julgamento] que a minha mulher moa os cereais para outro homem,
e que outros se deitem com ela.
[11] Pois [ele dá a explicação para merecer essa punição] eu teria cometido um crime hediondo,
um delito a ser punido pelos juízes.
[12] Isso seria fogo que consome até a destruição
e arrancaria toda a minha colheita pela raiz.
A santidade de Jó é profunda e larga. Ela afeta todas as áreas da vida dele. Ele vive para Deus no casamento e no trabalho.
O quarto pecado lida com os relacionamento daqueles que trabalhavam para Jó:
4. INJUSTIÇA (vv. 13-15)
[13] Se não reconheci o direito do meu servo ou da minha serva [se fui injusto]
quando eles reclamavam contra mim,
[14] então que faria eu quando Deus se levantasse no tribunal?
E, se ele me interrogasse, que lhe responderia eu?
[15] Aquele que me formou no ventre de minha mãe não os fez também a eles?
Ou não é o mesmo Deus que nos formou no ventre materno?
Jó vê cada ser humano como alguém criado à imagem de Deus, como ele, e por isso é digno de ser tratado com justiça e amor. Jó não olha para as pessoas de cima para baixo.
Povo de Deus, é assim que o Senhor quer que vejamos as pessoas que nos servem. Quando você está em um restaurante, trate o garçom com dignidade e respeito. Quando você for no mercado, em uma loja, no posto de gasolina, na portaria, trate as pessoas com dignidade.
Vocês que são líderes no trabalho, tratem seus liderados com amor. Eles não são instrumentos para o seus projetos pessoais. Eles são seres humanos criados à imagem de Deus! Criados do mesmo material que nós fomos feitos.
Jó vive de maneira fiel à Deus no casamento, no trabalho e no mundo. O quinto pecado que Jó foge é a:
5. AVAREZA (vv. 16-23)
Jó não é pão-duro. Ele reflete a generosidade de Deus com os necessitados.
[16] Se retive o que os pobres desejavam
ou deixei que os olhos das viúvas esperassem em vão;
[17] ou, se sozinho comi o meu bocado, sem reparti-lo com os órfãos
[18] — porque desde a minha mocidade eu os criei como se fosse pai deles,
durante toda a minha vida fui o guia das viúvas —;
[19] se vi alguém perecer por falta de roupa
ou notava que o necessitado não tinha com que se cobrir;
[20] se ele não me agradeceu do fundo do coração,
quando se aquecia com a lã dos meus cordeiros;
[21] se eu levantei a mão contra o órfão,
sabendo que eu tinha o apoio dos juízes,
[22] então [a punição—a automaldição] que a omoplata caia do meu ombro,
e que o meu braço seja arrancado da articulação.
[23] Porque [a explicação] o castigo de Deus seria para mim um assombro,
e eu não poderia enfrentar a sua majestade.
As viúvas e os órfãos corriam perigo constante. Sem um marido ou sem os pais, essas mulheres e essas crianças estavam expostas à falta de abrigo, falta de comida e falta de roupa. Mas não se eles estivessem perto de Jó.
Ele era um guia para as viúvas e um pai para os órfãos. Jó pegava a lã dos cordeiros dele e fazia roupas para os necessitados. Dividia a marmita dele com quem estivesse com fome. Como Jesus, ele era cheio de compaixão.
Eu fico tão encorajado quando vejo nas assembleias as ofertas que a igreja tem dado àqueles que tem passado necessidades em nossa igreja, como Jó fazia.
Que o Senhor aumente mais e mais nossa alegria em ajudar quem precisar.
Sexto pecado:
6. MATERIALISMO (vv. 24-25)
Apesar de tão comum em nosso tempo, o materialismo não é um pecado moderno.
[24] Se no ouro pus a minha esperança
ou se eu disse ao ouro fino: ‘Você é a minha garantia’;
[25] se me alegrei por ser grande a minha riqueza
e por ter a minha mão alcançado muito;
Jó confiava em Deus, não nas riquezas—mesmo quando ele era muito rico. E isso é muito difícil.
Jesus disse que:
É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus (Mateus 19:24).
Paulo disse que:
O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (1 Timóteo 6:10).
Existe uma razão por que Jesus e Paulo disseram isso. As riquezas criam essa sensação de segurança e se tornam um obstáculo para dependermos de Deus. Foi assim com o jovem rico. É assim com muitos hoje.
Mas não foi assim com Jó. Com a graça de Deus, é possível ter riquezas em casa e ter fé no coração. Jó usava o dinheiro dele, não como um substituto de Deus—onde ele colocava a esperança dele, mas como um instrumento de Deus, onde ele usava para abençoar as pessoas.
Tanto que, mesmo depois que ele foi de milionário para mendigo, Jó disse pela fé:
— Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei. O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! (Jó 1:21)
O próximo pecado também está ligado à adoração e à idolatria.
Se o materialismo é colocar nossa confiança nas riquezas em vez de em Deus, o paganismo (a idolatria) é colocar confiança em objetos da criação em vez de confiar no Criador.
7. PAGANISMO (vv. 26-28)
[26] se olhei para o sol, quando resplandecia,
ou para a lua, que caminhava em seu esplendor,
[27] e o meu coração se deixou seduzir em segredo,
e eu lhes atirei beijos com a mão,
[28] também isto seria um delito a ser punido pelos juízes,
pois eu teria negado a Deus, que está lá em cima.
O homem é realmente um ser religioso. Se ele não confiar em Deus, ele vai colocar a confiança dele em um amuleto, um objeto, ou nele mesmo. Sem fé, ele não fica. Nós estamos sempre confiando em alguma coisa ou em alguém.
Jó está afirmando diante de Deus e dos amigos e dos anjos e de quem mais quiser ouvir: “Eu confio em Deus somente”.
A piedade de Jó é profunda. E larga. Ele continua lidando com o coração nas mais diversas áreas da vida. Ele é um homem inteiro—íntegro—que se entrega a Deus.
8. VINGANÇA (vv. 29-30
O oitavo pecado da lista de Jó lida com o espírito vingativo—esse sentimento de ódio por aqueles que nos tratam mal.
[29] Se me alegrei com a desgraça do que me odeia
e se exultei quando o mal o atingiu
[30] — eu que não deixei a minha boca pecar,
rogando praga para que morresse —;
Uma atitude de vingança é uma atitude contrária ao evangelho. Uma das maneiras em que Deus descreve o evangelho da salvação é usando a ideia de reconciliação.
A Bíblia descreve o nosso relacionamento com Deus antes da fé em Cristo como um relacionamento de inimizade.
E como Deus lidou conosco quando nós éramos inimigos dele? Eu vou responder com:
Romanos 5:10—Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho...
Deus não lidou com vingança. Não foi o nosso sangue que ele derramou. Deus lidou conosco com a morte do Filho dele. O sangue que Deus derramou foi o sangue do Filho dele.
Foi esse o efeito do amor de Deus no coração de Jó. Jó não lidava com aqueles que eram contra ele com vingança. Jó não tinha alegria na desgraça deles.
Se você tem alimentado amargura no seu coração—se você tem uma certa raiva de alguém sedimentada no fundo da sua alma—você precisa deixar o Senhor Jesus tirar isso de você?
Medite no evangelho que transforma você de um inimigo em um amigo de Deus ao custo do sangue do Filho de Deus, e se liberte da prisão que é viver com um desejo de vingança.
Um desejo por justiça é apropriado no coração do crente. Uma alegria egoísta em ver a desgraça dos inimigos é absolutamente inapropriada (Ash, Job, 317).
9. FALTA DE HOSPITALIDADE (vv. 31-32)
[31] se as pessoas que moram na minha tenda não disseram:
“Quem nos dera encontrar alguém que não se saciou da carne provida por ele”
[32] — pois o estrangeiro não pernoitava na rua;
as minhas portas estavam sempre abertas para os viajantes! —;
O coração e a casa dele estavam sempre abertos para quem precisava.
Crente, sua hospitalidade reflete o caráter de Deus. Quando você abre as portas da sua casa—para as reuniões do Pequeno Grupo, para almoçar ou lanchar com as pessoas, para conhecer melhor aqueles que ainda não conhecem o Senhor—você está manifestando o caráter do seu Deus hospitaleiro.
Deus criou tudo. Tudo é dele. E ele abre as portas desse mundo, nos convida para entrar e viver aqui e cuida de todas as nossas necessidades. É muita generosidade e hospitalidade.
Jó dava carne, cama, cobertor e o que fosse necessário para cuidar das pessoas.
JÓ É UM FARISEU?
Antes de passarmos para o momento em que Jó vai entregar para Deus o documento da sua inocência, nós precisamos parar e lidar com uma pergunta:
Está certo o que Jó está fazendo? Ele não está sendo um homem orgulhoso desfilando a piedade dele diante de Deus e das pessoas? Ele não está agindo como um fariseus—“obrigado, Senhor, porque eu não sou um pecado como os outros”? Vejam como eu sou um homem santo!
Jó não está sendo orgulhoso em falar tanto da santidade dele? Eu acho que não.
O objetivo de Jó em falar da piedade dele—da fidelidade dele à Deus—não é receber aplausos das pessoas. Nem é dizer que ele merece ser justificado pelas obras dele.
Jó não é um Nabucodonosor, como o peito estufado dizendo:
— Não é esta a grande Babilônia que eu construí para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade? (Daniel 4:30)
Não é esse o espírito em Jó. O peito de Jó não está estufado. O peito de Jó está machucado pela dor, pelas acusações, pela perda dos filhos e pelo silêncio de Deus.
Jó é um homem desesperado, se sentindo injustiçado e sofrendo sem entender por quê. O espírito de Jó é mais de um homem perseguido se defendendo.
O Rei Davi fez a mesma coisa:
Salmo 7—(...) julga-me, Senhor, segundo a minha justiça e segundo a integridade que há em mim. Que cesse a maldade dos ímpios. Fortalece o justo, pois sondas a mente e o coração, ó Deus justo (vv. 8-9).
Esse é o espírito de Jó: “Senhor, eu ando na luz, não nas trevas. Me trata como alguém que vive para o Senhor”.
O último pecado da lista de Jó. O último voto de inocência:
10. FALTA DE CONFISSÃO (vv. 33-34)
[33] se, como Adão, encobri as minhas transgressões,
ocultando a minha iniquidade em meu íntimo,
Isso prova que Jó não está dizendo que ele não tem pecado. O que ele está dizendo é que ele é inocente das acusações que fizeram contra ele. Ele está dizendo que ele é um crente que vive em arrependimento e fé. Ele não esconde os pecados. Ele confessa e abandona.
Provérbios 28:13-14—Quem encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e abandona alcançará misericórdia. Feliz é aquele que sempre teme o Senhor; mas o que endurece o seu coração cairá na desgraça.
Jó usa o exemplo de Adão para dizer o que ele não faz. Quando Adão e Eva pecaram, eles tentaram encobrir as transgressões como eles fizeram com as folhas de figueira para cobrir a nudez. Mas com o pecado, encobrir e ocultar nunca nos fará prosperar espiritualmente.
Jó aprendeu que Deus proveu uma maneira para lidar com o nosso pecado. Nós vemos isso logo no início do livro de Jó.
Jó 1:5—Quando se encerrava um ciclo de banquetes, Jó chamava os seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos (sacrifício) segundo o número de todos eles. Pois Jó pensava assim: “Talvez os meus filhos tenham pecado e blasfemado contra Deus em seu coração.”
Jó entendia o conceito do evangelho de um sacrifício substitutivo. Crente, Jesus é o Cordeiro de Deus. Ele é o seu sacrifício substitutivo.
É por isso você pode confessar e ser perdoado.
É por isso que o apóstolo João fala:
Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1João 1:8-9).
Jesus não veio para o que se acham justos, mas para pecadores.
Mas esconder o pecado é a atitude padrão do ser humano quando peca (Ash, Job, 318). Por vários motivos, um deles está no versículo 34:
[34] porque eu tinha medo da grande multidão,
e o desprezo das famílias me apavorava,
fazendo com que eu me calasse e não saísse da porta…
Porque se nós confessarmos, a imagem que as pessoas têm de nós pode mudar. A nossa reputação pode ficar mais manchada. O temor do que as pessoas vão pensar pode nos levar a esconder o pecado.
Quero lembrar vocês de duas coisas que podem nos ajudar a confessar sem temer que as pessoas verão as manchas no raio-X da nossa alma.
Primeiro, Deus já nos perdoou em Cristo.
Ele considera o raio-X perfeito de Jesus para lidar conosco. Você se lembra o que Deus pensa daqueles que confessam e creem: “Esse é um filho meu. Perdoado. Essa é filha minha. Perdoada”.
Segundo, quando você confessa um pecado para uma pessoa, você está sempre confessando o pecado para um outro pecador.
Não é só você que está lutando.
• Você luta contra preocupação e ficar ansioso? Eu também.
• Você precisa mortificar seu orgulhoso e a falta de amor com as pessoas? Você e todo o resto da humanidade.
• Você precisa lidar com pensamentos que ofendem a Deus? Você e todos os seres humanos que respiram.
Como Paulo disse em Filipenses 3, ninguém obteve a perfeição... ainda.
Um dia, em breve, nós vamos descansar—para sempre!—dessa luta. Mas aqui, nesse corpo, nesse mundo, nessa vida, nós vamos precisar lutar. E lutar juntos.
Que a nossa igreja seja um lugar onde nós, pecadores, possam confessar pecados, sermos ajudados, sermos perdoados uns pelos outros, e corrermos juntos para aquele que nunca pecou e se entregou por nós como o nosso substituto.
Nas conversas depois do culto, nos discipulados, no tempo de compartilhar pedidos de oração no PG, quando for apropriado, sejamos íntegros e, como Jó, vamos confiar no Deus que perdoa pecadores que confessam seus pecados porque o Cordeiro foi morto em nosso lugar.
Chegamos. Tudo o que Jó disse até agora, desde o capítulo 29, tinha o objetivo de chegar aqui.
Chegamos na:
3. ENTREGA DO DOCUMENTO (vv. 35-37)
Jó interrompe os votos dele usando a mesma expressão que ele usou no início da defesa (no capítulo 29):
[35] Quem dera que eu tivesse quem me ouvisse!
Quem me dera! Jó não aguenta mais esperar.
Nós temos o texto das palavras de Jó, não temos nem áudio nem vídeo. Mas diante de tudo o que Jó falou, eu imagino Jó aqui chorando, ofegante, agitado, desesperado para que Deus fale com ele. A espera está insuportável. Jó chegou no limite dele. Acabou.
O versículo 35 é o versículo mais tenso de todo o livro de Jó. A ousadia de Jó é desconfortável. Jó entrega oficialmente o documento nas mãos do Juiz de toda a terra, do Deus Todo-Poderoso, exigindo um parecer.
[35] Quem dera que eu tivesse quem me ouvisse!
Eis aqui a minha defesa assinada!
Que o Todo-Poderoso me responda!
Que o meu adversário escreva a sua acusação!
A atmosfera está carregada. Densa. Se alguém tivesse uma faca, seria possível cortar o ar. Jó chama Deus, o Todo-Poderoso, de “meu adversário”. E desafia Deus a escrever a acusação e provar que Jó é culpado.
Vocês lembram o cenário: nós estamos em uma sala de tribunal. As acusações contra Jó foram apresentadas. Jó se defendeu de todas elas. Ele se levanta da cadeira de réu, faz um discurso brilhante, faz votos de inocência, declarações de automaldição se ele estiver mentindo, escreve tudo, assina no final da folha e diz:
Que o Todo-Poderoso me responda!
Que o meu adversário escreva a sua acusação!
Jó está tão confiante de que ele é inocente, tão confiante, que ele continua dizendo:
[36] Por certo que a levaria [a acusação] sobre o meu ombro,
e a poria sobre mim como se fosse uma coroa.
[37] Eu lhe mostraria o número dos meus passos;
como príncipe eu me aproximaria dele.
A confiança de Jó de que ele é inocente é tão grande, que ele diz que ele pegaria a lista de acusações contra ele e desfilaria ao redor do pescoço—sobre os ombros, e como uma coroa, a vista de todo mundo. Ele não tem medo das acusações serem verdadeiras.
A confiança dele de que ele é inocente é tão grande, que ele se aproximaria de Deus como um príncipe—cabeça levantada, firme, com honra—porque ele sabe que está falando a verdade.
Jó desafia Deus a provar que ele é culpado. Eu disse que o momento é tenso. O mais tenso até aqui.
Deus está me tratando como um culpado. Ele precisa provar. Se ele não conseguir provar, então ficará provado que Deus é culpado de injustiça comigo!
Como um pastor chamado Christopher Ash disse:
• É como se Jó estivesse abrindo um processo de impeachment contra Deus.
• Deus está sendo convocado para comparecer no tribunal e dar explicações sobre como ele tem governado a vida de Jó.
• Jó está chamando o Criador do Universo para prestar contas do que ele está fazendo com ele. Jó está confiante que de ele é justo, e Deus não está agindo com justiça (Ash, Job, 319).
O desejo de querer ser justificado por Deus é bom. A maneira como Jó está manifestando esse desejo não é boa. Jó em breve será repreendido seriamente por isso.
O que Jó faz agora é estranho. Ele volta a fazer um voto de inocência no final com uma declaração de maldição contra ele mesmo.
11. EXPLORAÇÃO (vv. 38-40)
[38] Se a minha terra clamar contra mim,
e se os seus sulcos juntamente chorarem;
[39] se comi os seus frutos sem pagar
ou se causei a morte aos seus donos,
[40] [o julgamento, a maldição:] que ela produza espinhos em vez de trigo,
e joio em lugar de cevada.
Jó está agitado. Ofegante. Ele não pensa de forma perfeitamente linear. Ele está desesperado para que Deus fale logo e acabasse com esse suspense infernal de ele ser acusado e Deus não fazer nada.
O voto anterior foi interrompido no meio para Jó entregar o documento de defesa dele assinado para Deus. Esse último voto (bônus) tem a intenção de retomar o que ele estava falando (em mais um voto) e terminar repetindo, de novo, e outra vez, e novamente, que ele é inocente e que, se ele não for, que ele seja amaldiçoado como a raça humana merece.
Repararam nas palavras que Jó usa nesses últimos versículos. No versículo 35, ele tinha falado de “Adão”. Ele fala de “terra” no versículo 38. No versículo 39, ele fala de comer “frutos” e causar “morte”. No versículo 40, da terra produzindo “espinhos”.
Que outro capítulo na Bíblia—e que Jó teria conhecimento da história—fala de Adão, terra, fruto, morte, e o Criador fazendo nascer espinhos da terra em sinal de maldição?
Jó está usando a linguagem de Gênesis 3 para dizer que, se ele é culpado, que o Criador derrame sobre ele a maldição que a raça humana merece usando o cenário da primeira maldição que entrou nesse mundo.
Jó não deixa escolha para Deus. Se Deus continuar em silêncio, isso vai provar que Jó estava certo porque o acusador (Deus) não conseguiu refutar os argumentos do acusado (Jó).
Mas como nós vamos ver, ninguém pode controlar Deus. E ninguém pode ser mais justo que Deus. Jó será repreendido pelo que ele falou sobre Deus.
APLICAÇÕES
Agora, pense no que Jó mais deseja nessa defesa: ele quer ouvir do juiz (Deus) que ele é um homem inocente aos olhos de Deus—ele quer ser declarado justo, mesmo não sendo um homem perfeito, porque ele tem fé.
Qual é o nome que nós damos—melhor, qual é o nome que Bíblia dá—para esse ato de declaração de Deus (o Juiz) de que uma pessoa é justa aos olhos dele? Justificação.
Justificação não é uma doutrina abstrata que os teólogos gostam de discutir para se divertir. Justificação é o que pecadores como nós mais precisamos nesse mundo! É como ter certeza de que Deus vê você como inocente (justo, sem culpa) diante dele.
E a Palavra de Deus ensina que isso acontece quando você crê que você deveria ser condenado por Deus, mas Jesus tomou seu lugar na cruz.
Os votos de automaldição de Jó contra ele mesmo nos lembra do que o Senhor Jesus fez por nós.
Jó disse:
“Se eu pequei, que eu seja amaldiçoado”.
“Se eu pequei, que eu morra”.
Foi o que Jesus fez. Como uma diferença:
“Se ELE pecou, que EU seja amaldiçoado”.
‘Se ELE pecou, que EU morra”.
Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2Coríntios 5:21).
Pela fé, você recebe essa justiça e pode entrar no tribunal de Deus com a confiança de um príncipe.
A defesa de Jó nos ensina também a necessidade da santificação. Jó usa a santificação dele como uma evidência de que ele ama a Deus. Não como uma causa para Deus perdoá-lo, mas como uma prova de que ele tem um coração transformado—um coração que tem fé.
Hebreus 12:14 diz que “sem [santificação] ninguém verá o Senhor”. Sua vida transformada—seu desejo de andar na luz é a evidência de que você é um cristão verdadeiro.
Mas além da importância da justificação e da necessidade da santidade, Jó nos ensina a possibilidade da santidade. É possível você viver para Deus—é possível você andar pela fé, andar na luz, andar em santidade, como Jó andou.
Foi para isso também que Jesus morreu e ressuscitou.
CONCLUSÃO
A defesa de Jó é uma ilustração viva de que a justificação pela fé se manifesta em santificação—em uma vida transformada. Ainda com manchas do pecado, mas um raio-X de um coração de carne, pulsando de desejo por Deus.
Porque o evangelho perdoa você e purifica você.
O evangelho salva e santifica você.
O evangelho transporta você para o Reino e transforma você na imagem do Rei.
Jó, o sofredor inocente, será vindicado por Deus, como o nosso Senhor Jesus foi também. É por causa da sua fé nele, você pode ter confiança para se aproximar de Deus e saber que o Juiz já declarou você justo. E viver seus dias aqui para ele.
Igreja Batista Jardim Minesota
Rua Clotildes Barbosa de Souza, 144
Jardim Santa Maria (Nova Veneza) Sumaré - São Paulo



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