Jó 42:7-17: A Glória de Jó e a Graça de Deus
- Pastor Alex Daher

- 27 de jul.
- 22 min de leitura
Série em Jó: Sofrimento Soberano 26 de Julho de 2026 – IBJM
A jornada de Jó está chegando ao fim. E não foi uma jornada calma em uma pista plana. Foi uma montanha-russa. Jó passou por muitos altos e baixos. Mas durante todo o tempo, Jó nunca deixou de amar a Deus. E Deus nunca deixar de amar a Jó.
Quando nós começamos, eu não imaginei que o Senhor ia me fazer amar tanto Jó. Ele se tornou um irmão precioso. Mesmo diante de tanta dor e mesmo diante de tanta acusação, mesmo perdendo todos os bens, todos os filhos e praticamente toda a saúde, ele não deixou de buscar a Deus.
Mesmo quando tudo parecia tão escuro e tão tenebroso e tão sem saída, mesmo no fundo do poço, ele se agarrou à corda da fé no Deus dele esperando ele o puxar. Jó disse coisas como:
Ainda que ele me mate, nele esperarei (Jó 13:15).
Já agora a minha testemunha está no céu (Jó 16:19).
Eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra (Jó 19:25).
Mas Jó também disse coisas que ele não deveria ter dito. E por essas coisas, Deus precisou corrigir o coração de Jó. Por amor.
Vocês se lembram o que acabou de acontecer com Jó, no começo do capítulo 42. Ver Deus em sua grandeza e glória foi suficiente para levantar o espírito de Jó.
E nesse processo de levantamento de espírito, Jó se abaixou e se prostrou diante do Senhor em fé humilde e arrependimento profundo:
Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.
Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza (Jó 42:5-6).
Deus atraiu o coração de Jó para perto dele. Mas o Jó do capítulo 42 não é o mesmo Jó do capítulo 1. Jó não é o mesmo homem piedoso que ele era. Ele é ainda mais (adaptação e paráfrase de Talbert, 230).
O Jó do capítulo 42 conhece a Deus ainda melhor.
Esse não é o desejo de todo o cristão—todos aqueles que receberam um novo coração? Conhecer a Deus ainda mais.
O caminho para conhecer mais a Deus nunca fácil. Nem rápido. Nem confortável. Mas é bom. Como Asafe orou no Salmo 73:
Quanto a mim, bom é estar perto de Deus;
faço do Senhor Deus o meu refúgio,
para proclamar todas as suas obras (Salmo 73:28).
Deus não usa glória dele para nos afastar dele. Ele usa a glória dele para nos resgatar para ele. Foi o que ele fez com Jó. É o que ele faz com você—todos os dias da sua vida, até a morte. A morte que em vez de nos separar dele, irá nos puxar para os braços de Cristo e nos unir a ele ainda mais.
Mas a história ainda não chegou ao fim. Deus ainda precisa lidar com os amigos de Jó e com o próprio Jó. E como a nossa história não chegou ao fim, Deus tem lições para nós também.
A cena final é cheia da graça. Essa cena tem dois eventos principais: a repreensão aos amigos e a restauração de Jó.
1. A REPREENSÃO AOS AMIGOS (vv. 7-9)
Não se engane com a palavra repreensão. Não veja essa palavra de forma negativa. A repreensão de Deus tem um objetivo salvador, se ouvirmos com os ouvidos da fé.
Provérbios 3:11-12—Meu filho, não rejeite a disciplina do Senhor, nem se aborreça com a sua repreensão. Porque o Senhor repreende a quem ama, assim como um pai repreende o filho a quem quer bem.
A repreensão que Deus faz aos amigos de Jó tem o evangelho da salvação em seus 4 ingredientes essenciais.
Vamos caminhar pelas palavras salvadoras de Deus.
1. A SITUAÇÃO (v. 7ab)
[7] Depois que o Senhor falou estas palavras a Jó, o Senhor disse também a Elifaz, o temanita: — A minha ira se acendeu contra você e contra os seus dois amigos...
O Senhor fala com Elifaz porque ele era o líder entre os 3 amigos, provavelmente o mais velho.
Nós falamos muito sobre como nós estamos nos sentindo em relação a Deus. Mas ainda mais importante é sabermos como Deus está se sentindo em relação a nós.
Como Deus se sente em relação a você?
Essa é a situação: Deus está irado com Elifaz, Bildade e Zofar.
Por que a ira de Deus se acendeu contra os amigos de Jó?
2. A RAZÃO (v. 7c)
Ainda no versículo 7:
[7] (...) A minha ira se acendeu contra você e contra os seus dois amigos, porque vocês não falaram a meu respeito o que é reto, como o meu servo Jó falou.
Os amigos de Jó se achavam proclamadores da palavra de Deus, professores da boa teologia, protetores da verdadeira sabedoria, mas agora Deus expõe o que realmente estava acontecendo: “Eles não falaram o que era reto sobre Deus”.
O sistema simplista deles de retribuição—fez o bem, é abençoado; pecou, é punido—é um sistema que os levou a falsas conclusões sobre Jó e a falsas conclusões sobre Deus.
• O nosso problema maior não são as pessoas a nossa volta que nos tratam mal, ainda que isso seja um problema.
• O nosso problema maior não é esse mundo mal, ainda que isso seja um problema.
• O nosso problema maior nem é a existência de um ser mau como Satanás, ainda que isso seja um enorme problema.
O nosso maior problema não está fora de nós. Ele está dentro. Um problema que a Bíblia chama de pecado. O pecado é como um serpente dentro de nós que morde o nosso coração e injeta um veneno que torna nossos desejos distorcidos, que nos fazem buscar alegria e paz em coisas da criação—bens, relacionamentos, saúde—em vez de buscarmos satisfação em Deus.
O cenário foi preparado. O mesmo Deus que fica irado contra o nosso pecado é o Deus que oferece uma maneira da ira dele ser removida e nos sermos reconciliados com ele.
Situação: a ira de Deus.
Razão: o nosso pecado.
3. A SALVAÇÃO (v. 8)
Deus está provendo para os amigos de Jó uma maneira de eles se reconciliarem com Deus. O que Deus está falando para eles vale para nós também.
De que adianta resolver todos os nossos problemas nesse mundo e ainda ter um problema com Deus.
Duas coisas precisam estar presentes para o nosso relacionamento com Deus ser restaurado: um sacrifício e um sacerdote.
1. Sacrifício
Ouçam o que Deus fala para os amigos de Jó:
[8] Agora peguem sete novilhos e sete carneiros, e vão até o meu servo Jó, e ofereçam holocaustos em favor de vocês. (...)
Um sacrifício custoso (Hartley, The Book of Job, 539): “sete novilhos e sete carneiros” sendo oferecidos em holocaustos—mortos (o texto diz) “em favor de vocês”. Os carneiros inocentes são oferecidos no lugar dos culpados Elifaz, Bildade e Zofar.
O livro de Jó começou com Jó oferecendo holocaustos em favor dos seus filhos (Jó 1:5). O livro termina com Deus restaurando Jó a posição de intercessor, mediador, fazendo o papel de um sacerdote—aquele que oferece um sacrifício para Deus em nome de uma outra pessoa.
A santa ironia é que os amigos de Jó, que acusaram Jó o tempo todo de ser um pecador que precisava de perdão, agora precisam da intercessão daquele que eles diziam que era um impostor para eles serem perdoados por Deus.
Mas além de um sacrifício, nós precisamos de um sacerdote:
2. Sacerdote
Na mensagem de salvação que Deus está pregando, Deus escolheu colocar a ênfase—a luz do holofote—no papel de Jó como sacerdote, como o mediador.
Deus aponta a luz do holofote para Jó no papel de sacerdote repetindo duas coisas:
Primeiro, a ATIVIDADE que Jó executa:
• No versículo 8, Deus fala que Jó orará por vocês.
• No versículo 9, Deus fala aceitou a oração de Jó.
• No versículo 10, Deus restaura a sorte de Jó “quando este orou pelos seus amigos”.
Deus está ensinando que, para nos reconciliarmos com ele, precisamos de um mediador que ora, que intercede por nós.
Além da atividade, Deus repete também a IDENTIDADE do mediador que ele escolheu: 4 vezes, Deus chama Jó de “meu servo”.
No final do versículo 7, Deus termina dizendo “como o meu servo Jó falou”.
[8] Agora peguem sete novilhos e sete carneiros, e vão até o meu servo Jó, e ofereçam holocaustos em favor de vocês. O meu servo Jó orará por vocês, e eu aceitarei a intercessão dele, para que eu não os trate segundo a falta de juízo de vocês [a tolice de vocês]. Porque vocês não falaram a meu respeito o que é reto, como o meu servo Jó falou.
Essa é uma das maiores honras que um homem pode receber na terra é ser chamado de “servo de Deus”.
Jó queria ser declarado justo aos olhos de Deus.
Ele queria que Deus mostrasse, diante das acusações que ele estava ouvindo, que ele era um adorador verdadeiro, um crente real e não um hipócrita interesseiro.
O nome que nós damos para esse ato é justificação.
Deus concedeu o pedido de Jó: na frente dos amigos e dos anjos e dos demônios e na frente de Satanás, Jó é vindicado (defendido) publicamente: “meu servo Jó”, o mesmo título que Deus usou para se referir a Jó diante de Satanás no início do livro (1:8, 2:3).
Imagine: você está diante dos seus acusadores—incluindo Satanás, aquela maldita serpente—e Deus na frente de todos eles dizendo sobre você: “Ele é meu servo. Ela é minha serva”.
Crente no Senhor Jesus, você pode ser acusado por pessoas próximas e por pessoas distantes. Quando estiver difícil perseverar, lembre-se disso: naquele grande dia, quando todos serão julgados, Jesus dirá sobre você, crente:
“Muito bem, servo bom e fiel; você foi fiel no pouco, sobre o muito o colocarei; venha participar da alegria do seu senhor” (Mateus 25:21).
Qualquer coisa vale a pena para ouvir da boca do Senhor Jesus essas palavras. Quem pode medir a quantidade de alegria no seu coração quando ele fizer essa declaração pública sobre você?
Jó experimentou uma prévia desse dia nessa cena.
JESUS, NOSSO SUMO-SACERDOTE
Agora, se Deus aceitou a intercessão de Jó em favor dos seus amigos, quanto mais Deus aceitará a intercessão de Jesus em seu favor.
Mais uma verdade valiosa para você guardar no coração quando estiver difícil perseverar: “Jesus intercede por mim”.
Hebreus 7:25—Por isso, [Jesus] também pode salvar totalmente os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por eles.
Robert M’Cheyne, um homem piedoso que viveu no século XIX, disse uma vez:
Se eu pudesse ouvir Cristo orando por mim no quarto ao lado, não teria medo de um milhão de inimigos. A distância não faz diferença. Ele está orando por mim (Andrew A. Bonar, Memoir and Remains of the Rev. Robert Murray M’Cheyne, Banner of Truth Edition, 153).
Como você se sentiria se você ouvisse a voz de Jesus: “Pai, sustenta o Alex. Dá força para ele perseverar. Mostra para ele a tua presença doce”.
O fato de Jesus estar no céu não muda essa realidade. “A distância não faz diferença”. Ele está orando por você.
Deus terminou seu sermão evangelístico. Agora é a hora da resposta.
Sempre que nós ouvimos a Palavra de Deus, Deus nos chama a responder.
4. A RESPOSTA (v. 9)
Os amigos de Jó responderam.
[9] Então Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita, foram e fizeram o que o Senhor lhes havia ordenado; e o Senhor aceitou a oração de Jó.
4.1 A RESPOSTA DOS AMIGOS DE JÓ
Os acusadores de Jó se arrependeram. Os três amigos de Jó confiaram na mensagem que Deus pregou. Eles reconheceram que pecaram. Eles prepararam os sete novilhos e os sete carneiros e foram até Jó com um coração humilhado—convencidos do pecado, mas convencidos também da graça de que perdoa pecadores.
O Deus de pura santidade que se ira contra o pecado é o Deus de grande bondade que oferece perdão para você através de um sacerdote (Jesus) que oferece um sacrifício (ele próprio na cruz) no seu lugar.
Você pode ser perdoado hoje, meu amigo pecador. Bom é estar perto de Deus.
Mas além da resposta dos amigos de Jó, o versículo 10 nos dá a resposta de Jó:
4.2 A RESPOSTA DE JÓ
[9] (...) e o Senhor aceitou a oração de Jó.
Se o Senhor aceitou a oração de Jó, foi porque Jó orou. O versículo 10 repete essa verdade de forma explícita:
[10] O Senhor restaurou a sorte de Jó, quando este orou pelos seus amigos...
Que demonstração linda da poderosa graça de Deus. Lembre-se por quem Jó está orando:
Ele está orando por 3 homens que, quando ele mais precisava, ficaram acusando Jó de uma lista de pecados que ele não cometeu. Homens que disseram que ele não era um crente verdadeiro—que ele era um hipócrita que seria julgado por Deus.
Como o Rei Saul atirou lanças para ferir Davi, os amigos de Jó atiraram lanças e mais lanças de acusações falsas e feriram Jó quando ele mais precisava de cura.
Mas Jó orou. Jó perdoou e orou. Jó tomou o sacrifício—os novilhos e os carneiros, e disse:
— Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
Que cena gloriosa! Que cena da graça!
Jó intercedendo por aqueles que o atacaram. Jó ainda está completamente pobre, completamente sem filhos e completamente cheio de tumores pelo corpo. E do chão, sentado no pó da terra, em seu momento de sofrimento, Jó perdoa e intercede pelos seus acusadores.
Como quem Jó aprendeu a ser tão gracioso? Com quem Jó aprendeu a ser cheio de misericórdia? Ele aprendeu com Deus.
Jó foi perdoado por Deus depois de tê-lo acusado. E quando você fica maravilhado de ter sido perdoado pela sua multidão de pecados, o seu coração fica cheio de graça para perdoar as pessoas que ofenderam você.
E quando você imita Jó, você está imitando alguém maior do que Jó. Você está imitando Jesus, o Mediador de Jó, o servo sofredor, aquele que a Bíblia diz em Isaías 53 que ele:
(...) levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu (Isaías 53:12).
Quando Jesus estava crucificado no meio de 3 ladrões, levantado do chão, pregado no madeiro, em seu momento de sofrimento, ele usou o pouco fôlego de vida que ele ainda tinha para orar por aqueles que o acusavam.
— Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lucas 23:34).
A pergunta para cada um de nós agora é: quem você precisa perdoar? Quem ofendeu você e que você precisa orar, interceder, pedir para Deus: “Pai, perdoa-lhe”.
O que Deus pediu de Jó, ele pede de cada um de nós.
Deus perdoou você em Cristo. Quem você precisa perdoar? Jesus disse:
— Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.” Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus. (Mateus 5:43-45).
Existe mais uma manifestação da graça nessa mensagem do evangelho que Deus está pregando.
Duas vezes, Deus disse que Jó falou o que é reto a respeito de Deus. No final do versículo 7 e no final do versículo 8.
JÓ FALOU O QUE É RETO?
Mas como Deus pode dizer uma coisa dessas—que Jó disse o que é reto sobre ele—depois de Deus ter acabado de corrigir Jó pelas palavras dele contra Deus? Deus disse:
Quem é este que obscurece os meus planos
com palavras sem conhecimento? (Jó 38:2)
Quando Deus fala que Jó disse o que era reto sobre ele, Deus pode estar se referindo somente ao que Jó disse no início do capítulo 42—“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frutado” (v. 2) e “eu me arrependo no pó e na cinza”. Pode ser. Algumas pessoas entendem assim.
Eu entendo que Deus está falando mais do que isso.
Nós temos uma pista em Ezequiel, o único texto no Antigo Testamento fora do livro de Jó que menciona Jó. Ezequiel, com sua interpretação inspirada pelo Espírito, fala de Jó como um homem que é um exemplo de piedade, junto com Noé e Daniel.
Quando Ezequiel olha para a vida de Jó (como um todo!), ele não vê principalmente um homem que disse palavras ruins para o seu Deus. Ele vê um homem que amava o seu Deus e temia a Deus, ainda que não de forma perfeita.
Deus está fazendo a mesma coisa. Deus olha para Jó, não principalmente com um pecador que ainda ofende a ele, mas como um filho amado que em breve será glorificado.
Não é que Deus ignore os pecados. Deus cobre os pecados. Ele cobre os pecados com o sangue do Filho dele.
Jesus olha para você da mesma maneira como Salomão olha para a sua amada em Cântico dos cânticos:
Você é toda linda, minha querida, e em você não há defeito (Cântico dos Cânticos 4:7).
Os olhos do amor fazem isso. Não é que nós não tenhamos nenhum defeito, mas é que Jesus olha para nos com o amor que sabe que, por causa do sangue que ele derramou, todos os nossos defeitos estão cobertos. E no dia do casamento, nós estaremos perfeitamente preparados para ele, nosso Noivo.
Nós só podemos entender completamente o que Deus está falando sobre Jó quando nós vamos até Jesus e o que ele fez naquela cruz.
O Evangelho é uma notícia tão maravilhosa, tão maravilhosa, que a única maneira de acreditarmos é se Deus nos der fé.
Jó reconciliado com Deus. Os amigos de Jó reconciliados com Deus. Chegou o momento da restauração.
2. A RESTAURAÇÃO DE JÓ (10-17)
E a razão para essa restauração de Jó é uma só: a graça de Deus. Nós precisamos tomar cuidado para não interpretar essa passagem errado e anular a mensagem de todo o livro de Jó.
A RAZÃO: GRAÇA (v. 10)
[10] O Senhor restaurou a sorte de Jó, quando este orou pelos seus amigos, e o Senhor lhe deu o dobro de tudo o que tinha tido antes.
Deixa eu começar dizendo o que esse texto não pode significar. Esse versículo não pode estar dizendo que Deus está retribuindo o bem que Jó fez. Agora que ele realmente se arrependeu e orou pelos amigos, agora Deus vai restaurar o que Jó tinha perdido.
Essa não pode ser a interpretação do final da vida de Jó porque isso confirmaria que a teologia simplista de retribuição dos amigos de Jó—“Deus sempre abençoa os bons e pune os maus nessa vida”.
E nós sabemos que essa teologia está errada porque não só Eliú não concordou com ela, mas Deus acabou de dizer que os amigos não falaram a respeito de Deus o que é reto.
O autor do livro de Jó quer que nós entendamos a restauração de vida de Jó como um presente da livre graça de Deus, não como uma retribuição que Deus é obrigado a dar a quem faz o bem.
No capítulo anterior, Deus disse:
Quem primeiro deu algo a mim para que eu tenha de retribuir-lhe? (Jó 41:11).
A resposta é ninguém. Tiago entendeu isso. Escrevendo para crentes que estavam sofrendo, ele usa o exemplo de Jó para nos encorajar a ter paciência e perseverar.
Por favor, abram suas bíblicas em Tiago, capítulo 5. Esse foi texto que ouvimos durante o culto.
Prestem atenção na razão que Tiago dá para a restauração de Jó:
Tiago 5:[10] Irmãos, tomem como exemplo de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor. Eis que consideramos felizes os que foram perseverantes. [11] Vocês ouviram a respeito da paciência de Jó e sabem como o Senhor fez com que tudo acabasse bem; porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão.
Deus fez com que acabasse bem, não porque Jó é cheio de merecimento, mas porque Deus é cheio de misericórdia.
Assim como Jó sofreu não porque ele pecou, mas porque Deus quis em sua soberania santa e misteriosa, também Jó foi abençoado por Deus, não porque ele obedeceu, mas porque Deus quis em sua soberania santa e misteriosa.
Você não acha também interessante, curioso, até estranho, Tiago falar da misericórdia e da enorme compaixão de Deus na vida de Jó depois de Deus ter permitido com que Satanás destruísse a vida de Jó. Isso é misericórdia? Isso é ser cheio de compaixão?
Depende. Depende de como nós definimos misericórdia e compaixão. Se a nossa definição de amor é evitar todo o tipo de sofrimento nessa vida, então a resposta é: “Não, Deus não foi amoroso com Jó”.
Mas não é assim que a Bíblia define amor:
• Amor é Deus nos mostrar quem ele é.
• Amor é Deus nos fazer prostrar diante da majestade dele, como ele fez com Jó.
• Amor é Deus nos trazer para perto dele.
• Amor é Deus nos dar fé para vermos a glória dele.
• Amor é Deus nos tornar mais parecidos com Jesus.
• Amor é Deus nos perdoar—como ele fez com Jó, quando nós respondemos mal ao sofrimento.
• Amor é Deus nos dar Deus!
Trazer essa verdade preciosa à sua mente durante o sofrimento vai ajudar você a suportar a dor com paciência e perseverar como Jó e os profetas fizeram: quando Deus torna a minha vida difícil, é porque ele está me amando. Ele está trabalhando em mim.
A restauração vertical entre Jó e Deus já aconteceu. Foi pela graça. Agora, pela graça, Deus opera a restauração horizontal na vida de Jó.
Essa restauração horizontal acontece em 3 lugares:
1. RELACIONAL (v. 11)
Nos relacionamentos de Jó.
[11] Então vieram a ele todos os seus irmãos, todas as suas irmãs e todos os que o haviam conhecido antes, e comeram com ele em sua casa. E se condoeram dele, e o consolaram por todo o mal que o Senhor tinha enviado sobre ele.
Como acontece em todo o livro de Jó—a soberania de Deus é afirmada. Deus nunca é culpado de pecado, mas ele é sempre soberano sobre o pecado.
Final do v.[11] (...) E cada um lhe deu dinheiro e um anel de ouro.
Esses presentes—dinheiro e um anel—são evidências de que a reconciliação aconteceu. Além do favor de Deus, agora Jó também tem o favor das pessoas.
Jó tinha sido abandonado. As pessoas em volta dele viram o enorme sofrimento dele e pensaram: “Deus abandonou esse homem. Ele deve ter muito pecado. Vamos abandoná-lo também. Vamos nos afastar”.
Demorou, mas Deus deu o consolo que Jó precisava também através dos amigos.
Essa restauração relacional (horizontal) de Jó nos lembra que nós não somos seres criados para viver sozinhos e nem para sofrer sozinhos.
Deus nos deu a igreja porque nós precisamos da igreja. Nós precisamos de pessoas que vão orar por nós e nos encorajar e nos aconselhar e nos corrigir e nos instruir.
Deus não fez você para ser como a aranha—que vive sozinha na sua teia e nunca tem companhia. Deus fez você para ser como a abelha—que vive em grupo, cada uma trabalhando para o bem da colmeia.
Nossa cultura é tão individualista. Mas o estilo de vida dos cristão é a de uma família. Nós não somos aranhas. Nós somos abelhas. Nossa santificação é um projeto coletivo.
Deus pode estar chamando você para sofrer diante das pessoas e mostrar que Deus é capaz de sustentar você.
E no seu sofrimento, Deus está equipando você para cuidar dos outros. Não foi isso que o apóstolo Paulo disse?
É ele que nos consola em toda a nossa tribulação, para que, pela consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que estiverem em qualquer espécie de tribulação (2Coríntios 1:4).
Permita-se ser consolado. E procure consolar outros. Essa é a benção de ser parte da Noiva de Cristo.
O segundo lugar de restauração horizontal é:
2. MATERIAL (v. 12)
[12] O Senhor abençoou o último estado de Jó mais do que o primeiro. Ele veio a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas.
O teste de Jó terminou. Satanás disse que Jó só adorava a Deus porque Deus tinha enchido Jó de coisas boas. Satanás disse que Jó era um religioso interesseiro que não amava a Deus, ele só queria as coisas que Deus podia dar para ele.
Deus provou que Satanás errou. O pai da mentira fez o que ele sempre faz: mentiu. Deus mostrou que ele é digno de ser adorado por quem ele é, não simplesmente por aquilo que ele nos dá. E agora que o teste terminou, Deus pode restaurar o que ele tinha tirado de Jó.
E Deus mais do que restaura. Ele abençoa com o dobro do que Jó tinha no início (Jó 1:2). Assim Deus está mostrando a enorme generosidade dele. Ele não só deu o que Jó tinha antes. Ele deu ainda mais.
Jó era o maior de todos do Oriente. O estado dele agora é ainda maior do que quando já era o maior. É uma ilustração da graça de Deus—que é sempre maior do que nós podemos imaginar.
Depois da restauração relacional e da restauração material, vem a restauração paternal:
3. PATERNAL (vv. 13-15)
[13] Também teve outros sete filhos e três filhas. [14] À primeira filha deu o nome de Jemima; à segunda chamou de Quézia; e à terceira, Quéren-Hapuque. [15] Em toda aquela terra não havia mulheres tão bonitas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos.
Existe uma quebra no padrão. Deus não deu o dobro de filhos para Jó, como ele fez com os animais. Uma única alma humana vale mais do que todos os bois desse mundo.
Esses 10 filhos não estão substituindo os 10 que morreram. Deus está abençoando Jó com filhos para alegrar o coração dele, não para repor aqueles que ele perdeu.
E para mostrar ainda mais da graça livre e soberana de Deus, ele dá para Jó 3 filhas campeãs do concurso de Miss Universo: as mulheres mais lindas do mundo eram as filhas de Jó.
O nome delas são símbolos de beleza da época (Hartley, 543):
• Jemima significa “pomba” – uma ave que representa a graciosidade.
• Quézia significa “cássia” — uma planta usada para perfume.
• Quéren-Hapuque vem de um pigmento preto que era usado para realçar o olhar das mulheres. Um tipo de maquiagem.
E elas ainda recebem herança junto com os irmãos, quando na época a herança era reservada para os homens. Mais um das milhões de manifestações da graça soberana de Deus.
O livro de Jó acaba registrando como a vida de Jó acaba:
O FIM DA VIDA DE JÓ (vv. 16-17)
[16] Depois disto, Jó viveu mais cento e quarenta anos; e viu os seus filhos e os filhos de seus filhos, até a quarta geração. [17] E assim Jó morreu, após uma longa velhice.
Mais literalmente, o texto diz: “Jó morreu velho, cheio de dias”. A ideia é de satisfação—uma vida cheia da presença de Deus.
O final do livro de Jó não é uma promessa que nós vamos viver muitos anos e seremos ricos. Isso seria, de novo, invalidar tudo o que Deus quis nos ensinar ao longo do livro.
O que o Senhor está nos dizendo no final do livro de Jó não é que seu sofrimento vai acabar nessa vida. Ele está dizendo que o seu sofrimento irá acabar (Talbert, 237).
Jó 42 é uma pequena ilustração da glória dos novos céus e nova terra onde a beleza e a riqueza da presença de Deus estará em tudo e em todos.
LIÇÕES NA JORNADA DE JÓ
Chegamos ao fim da vida de Jó e ao fim do livro de Jó.
Eu quero terminar retomando 3 lições que Deus nos ensinou ao longo da jornada de Jó.
1. A utilidade do sofrimento
O nome dessa série em Jó é “Sofrimento Soberano”. Assim como nós não devemos negar a realidade da sofrimento, também não devemos negar a realidade da soberania de Deus sobre os dias bons e os dias maus.
Nas mãos de Deus, o seu sofrimento é sempre útil.
Logo no início, Deus disse que Satanás incitou Deus a destruir Jó “sem motivo” (Jó 2:3). Mas o seu sofrimento ser sem motivo é diferente de ser sem propósito (Talbert, 235). Bem diferente.
Charles Spurgeon disse:
"Prefiro acreditar em um Deus que ordena a minha dor para o meu bem, do que em um Deus que deseja me ajudar, mas é impotente diante da tragédia."
Nada nos santifica mais do que a dor. Nada nos aproxima mais de Deus do que a sofrimento. Nada nos torna mais parecidos com Cristo, o Servo Sofredor, do que andar pelo caminho da aflição.
Não é fácil trilhar o caminho que nos leva pelo vale da sombra da morte, mas é bom. O que nós leva à próxima lição.
2. A necessidade da graça
A vida de Jó é um lembrete para nós que, mesmo nas pessoas mais piedosas da terra, todos nós precisamos desesperadamente da graça de Deus.
O sofrimento sacode o tanque do nosso coração. A terra do pecado que estava no fundo sobe. E assim fica claro o quanto nós precisamos da graça purificadora e perdoadora de Deus.
Talvez você já tenha ouvido alguém dizendo: “Deus não nos dá mais do que possamos suportar”. Talvez você já tenha dito isso para alguém.
Mas se olharmos com atenção para a Bíblia, não é exatamente isso que Deus diz. Na realidade, Deus diz o contrário.
Em uma das suas cartas, o apóstolo Paulo disse:
Porque não queremos, irmãos, que vocês fiquem sem saber que tipo de tribulação nos sobreveio na província da Ásia. Foi algo acima das nossas forças, a ponto de perdermos a esperança até da própria vida (2Coríntios 1:8).
Deus trouxe sofrimento na vida de Paulo acima das forças dele. Como ele fez com Jó. E como ele faz com você. Para quê? A resposta está no restante da passagem:
De fato, tivemos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, e sim no Deus que ressuscita os mortos (2Coríntios 1:9).
Mas não há um texto que fala que Deus não dá um fardo maior do que podemos carregar? Não tem. Se você pensou em 1 Coríntios 10:13, esse versículo não está falando de sofrimento. Está falando de tentação.
Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar; pelo contrário, juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar (1Coríntios 10:13).
Esse texto está falando de que Deus não nos colocará em uma situação em que você será obrigado a pecar. Ele promete nos dar graça para você trazer glória a ele não pecar.
Mas com as tribulações, Deus vai dar para você além do que você pode suportar. Como ele fez com Jó.
Ele irá levar você até o ponto de você desistir de você para você poder confiar só nele—no único que é capa de ressuscitar os mortos, o que nos leva à nossa próxima e última lição.
(Eu ouvi esse ponto sendo feito por Keith Krell em What Is The Purpose Of Our Pain?, Crossway Podcast, https://www.crossway.org/articles/podcast-what-is-the-purpose-of-our-pain-keith-krell/).
3. A centralidade da cruz
A utilidade do sofrimento. A necessidade da graça. E a centralidade da cruz.
A agonia de Jó encontra o seu cumprimento final na cruz de Cristo—a agonia das agonias, quando Jesus enfrentou uma escuridão ainda maior, e saiu do outro lado do sofrimento exaltado por Deus (Ash, Trusting God in the Darkness, 140-1). E carregando no peito um povo salvo.
Deus usa cada gota de sofrimento nesse mundo como um anúncio e um lembrete que no centro da história está a cruz onde o Filho de Deus sofreu e venceu.
O lugar onde Deus derrotou o mal e derreteu o nosso coração com o calor da graça dele.
Cada ferimento que você recebe aqui, que cada cicatriz que você carrega nessa vida, tem a intenção de levar nossos olhos para aquele que foi ferido, transpassado e morto por nós.
CONCLUSÃO
Todas as nossas perguntas sobre sofrimento não foram e não serão respondidas nessa vida. Mas tudo o que você precisa para perseverar no sofrimento foi respondido: você precisa confiar e adorar o Deus que governa esse mundo e sua vida com sabedoria, justiça e amor.
O Deus que controla o Leviatã, Satanás e é capaz de usar esse monstro e a morte para o nosso bem e a glória dele, como a cruz prova.
O livro de Jó não é principalmente sobre sofrimento.
O livro de Jó não é principalmente sobre Jó.
O livro de Jó é um livro sobre Deus.
O livro de Jó é também sobre Jesus:
• Assim como Jó foi atacado pelas forças do mal e perseverou até o fim, o Senhor Jesus foi atacado ainda mais e perseverou até o fim e nos amou até o fim.
• Assim como Jó intercedeu pelos seus amigos como um sacerdote, Jesus intercede por nós como o nosso Sumo-Sacerdote compassivo que oferece a si mesmo com o Cordeiro de Deus.
• Assim como Jó foi acusado pelos homens e justificado por Deus no final, Jesus também foi desprezado e acusado como ninguém, mas o sepulcro vazio e a ressurreição são a declaração de Deus que todas as acusações contra o Filho dele são falsas.
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Jó é sobre principalmente sobre Deus e sobre Jesus, mas Jó é também sobre cada um de nós, seguidores do Senhor Jesus (Ash, 141).
Ele disse que nós deveríamos tomar nossa cruz e segui-lo. Por isso, não fique surpreso se no caminho você enfrentar uma parte da dor que Jesus enfrentou.
O caminho nunca é fácil. Nem rápido. Nem confortável. Mas é bom.
• Continue esperando no Senhor, como Jó.
• Continue se humilhando diante da majestade do Senhor, como Jó.
• Continue buscando a presença do Senhor, como Jó.
Porque, como Jó, você sabe que o seu Redentor vive e por fim ele se levantará sobre a terra. E quando ele se levantar, você será levantado com ele.
Que esse seja o desejo que habita em nosso coração:
O que eu quero é conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte, para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos (Filipenses 3:10-11).
A Deus e ao Cordeiro, sejam a glória, hoje e sempre. Amém.
Igreja Batista Jardim Minesota
Rua Clotildes Barbosa de Souza, 144
Jardim Santa Maria (Nova Veneza) Sumaré - São Paulo



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