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Jó 4: Como Não Consolar Quem Sofre

  • Foto do escritor: Pastor Alex Daher
    Pastor Alex Daher
  • há 4 dias
  • 22 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Série em Jó: Sofrimento Soberano 23 de Novembro de 2025 – IBJM

No capítulo anterior, nós nos sentamos no chão com Jó e ouvimos o lamento dele. Jó está muito mal. Depois de ter passado uma semana da maior tragédia da vida dele—das maiores tragédias, foram várias—Jó está mal.

 

Jó respondeu muito bem assim que ele perdeu todos os bens e todos os filhos. Jó respondeu bem também quando ele ficou com o corpo coberto de tumores malignos. Ele bendisse o nome do Senhor. Ele declarou a soberania de Deus sobre o sofrimento dele e se submeteu à vontade do Senhor. Mas depois de uma semana, ele ficou muito angustiado e deprimido.

 

Isso é bem normal. Às vezes, nós começamos respondendo bem, mas conforme o tempo passa e os pensamentos passam em nossa mente, as coisas ficam mais difíceis. Talvez Jó tenha começado a pensar:

 

• “Eu perdi o os bens que eu levei a vida inteira para construir”.

• “Eu nunca mais vou poder ver meus filhos e falar com eles”.

• “Eu nunca mais vou ter a saúde que eu tinha”.

 

É muito difícil o que está acontecendo com Jó. Mas é muito normal.

 

O que você diz para alguém assim? Como você consola as pessoas que você ama quando eles estão sofrendo tanto? O que nós podemos falar que realmente irá ajudar? E o que você precisa ouvir quando é o seu coração que está pesado e triste? O que nos ajuda a levantar e o que nos deixa ainda mais para baixo?

 

UM EXEMPLO A NÃO SER SEGUIDO

A passagem de hoje é um exemplo de como NÃO consolar quem sofre. Deus usa também exemplos que não devem ser imitados para nos ensinar a viver. Elifaz, o amigo de Jó, é um exemplo do que nós NÃO devemos fazer.

 

O autor do livro de Jó nos dá uma indicação de que nós devemos interpretar as palavras dos amigos de Jó, como um todo, de maneira negativa. No final do livro, depois de todos os ciclos de conversas entre Jó e seus amigos, Deus fala o seguinte para Elifaz:

 

A minha ira se acendeu contra você e contra os seus dois amigos, porque vocês não falaram a meu respeito o que é reto (Jó 42:7).

 

O que deixa as passagens onde os amigos de Jó falam difícil de entender é que nem tudo o que eles falam é falso. Tem verdades no meio das mentiras. Tem coisas certas no meio das erradas.

 

COMO INTERPRETAR O MEIO DE JÓ?

Como andar pelas palavras de Elifaz, Bildade e Zofar sabendo quais são os frutos bons que devemos comer e quais são os frutos podres que devem cuspir?

 

Nem sempre é fácil responder essa pergunta, mas o que o autor de Jó faz para nos ajudar a interpretar é nos dar informações chaves no início (capítulos 1 e 2) e no fim do livro (capítulo 42). O começo e o fim de Jó são as duas lentes que nós precisamos usar—o tempo todo!—para interpretar os diálogos entre Jó e seus amigos no meio.

 

Do capítulo 3 ao capítulo 31 as únicas pessoas que falam são Jó e seus três amigos. Satanás não aparece mais no livro. E Deus só volta a falar no capítulo 38.

 

Nós vamos ver que esses diálogos entre Jó e seus amigos estão mais para uma discussão acalorada do que para uma conversa respeitosa. A temperatura das discussões e vai aumentando ao longo do tempo. E para transmitir ainda mais as emoções dessas discussões, o autor escreveu tudo em poesia, a linguagem do coração.

 

OS AMIGOS SÃO AMIGOS 

Mas aqui vai uma informação chave do início do livro para usarmos agora. Seria errado nós assumirmos que os amigos de Jó não amam a Jó; que eles tem uma intenção ruim e eles querem machucar Jó ainda mais.

 

Eles vieram de longe, deixaram tudo para trás, gastaram tempo e recursos para ver Jó e chorar com Jó. Por uma semana, eles não abriram a boca. Só derramaram lágrimas com o amigo deles.

 

Mas a intenção deles com a viagem até Jó não era só chorar. Eles vieram fazer mais. Volte, por favor, para perto do final do capítulo 2.

 

Jó 2:11—Quando três amigos de Jó ouviram que todo este mal havia caído sobre ele, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita. Tinham combinado ir juntos [para fazer duas cosias:] (1) condoer-se dele e (2) consolá-lo.

 

Condoer-se eles já fizeram. Agora eles vão começar a executar a segunda parte do plano: consolá-lo. A primeira parte, eles fizeram bem. A segunda parte (consolar Jó), eles fizeram mal. Quando eles abrem a boca, é um verdadeiro desastre.

 

UM SERMÃO RUIM 

Nós podemos aprender com Elifaz como NÃO consolar nossos irmãos. Nós vamos olhar para esse discurso de Elifaz como um sermão. Elifaz prega um sermão de 3 pontos para Jó. Eu vou pregar um sermão a partir do sermão de Elifaz.

 

Vocês vão perceber que Elifaz soa como um típico evangélico brasileiro. A teologia de Elifaz é a teologia mais popular em nosso país. Uma teologia que tem sérios problemas e, por isso, causa sérios problemas na vida das pessoas.

 

A intenção de Elifaz é boa. Mas o resultado é catastrófico. Eu imagino que todos nós já falamos o que não deveríamos. Se eu pudesse voltar no tempo, eu teria engolido uma montanha de palavras que eu disse. Mas depois que elas já saíram, eles não voltam mais. Elas são como água derramada no chão. Não tem como recuperar.

 

Mas o que nós podemos fazer é buscar a sabedoria do Senhor para que nossas palavras sejam um consolo para os nossos irmãos e os levante, em vez de empurrá-los ainda mais para baixo.

 

Elifaz tem um sermão de 3 pontos para Jó:

 

1.     VOCÊ ESTÁ COLHENDO O QUE VOCÊ PLANTOU (4:1-11) 

Elifaz é o primeiro a falar porque ele é o mais velho:

 

[1] Então Elifaz, o temanita, tomou a palavra e disse: [2] Se alguém tentar falar, você terá paciência para ouvir? Mas quem poderá conter as palavras?

 

Elifaz não consegue mais ficar quieto. Depois de ouvir Jó se lamentando no capítulo 3, desejando não viver mais e triste e revoltado e amargurado e confuso e nesse furacão de sentimentos, Elifaz até que começa relativamente bem.

 

Ele lembra Jó do passado de piedade dele:

 

[3] Veja bem! Você [Jó] ensinou a muitos e fortaleceu mãos cansadas. [4] As suas palavras sustentaram os que tropeçavam, e você fortaleceu joelhos vacilantes.

 

Mas rapidamente Elifaz já começar a falar o que não deve:

 

[5] Mas agora, quando chega a sua vez, você perde a paciência; ao ser atingido, você fica apavorado.

 

“Jó, você já ajudou tantas pessoas a lidarem com a dor. Mas quando é a sua vez de aplicar para você os seus próprios conselhos, você fica desse jeito!”

 

Essa não é a melhor coisa para se dizer para alguém que está sofrendo. Elifaz poderia ser mais sensível. Esse é o tipo de comentário que não ajuda. “Calma, Jó, porque você está assim. Quando chega a sua vez de sofrer, você não aguenta?”

 

Elifaz faz várias perguntas e revela a teologia que ele está usando para entender o sofrimento de Jó:

 

[6] Você não tem confiança no seu temor a Deus? Não tem esperança na integridade dos seus caminhos? [7] Pense bem: será que algum inocente já chegou a perecer? E onde os retos foram destruídos? [8] Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles colhem.

 

E logo depois (versículo 9 a 11) ele usa a ilustração de um leão, que mesmo sendo forte e poderoso, com um sopro Deus pode acabar com a vida deles. Deus destrói os ímpios (mesmos eles sendo poderosos) como ele faz com leão.

 

Elifaz está dizendo: “Jó, os maus é que morrem de repente. Os inocentes, não”. É por isso que ele está perguntando para Jó no versículo 6:

 

[6] Você não tem confiança no seu temor a Deus? Não tem esperança na integridade dos seus caminhos?

 

Jó, se você teme o Senhor, você não vai morrer de repente. Isso é coisa que acontece com os ímpios, não com os justos.

 

[7] Pense bem: será que algum inocente já chegou a perecer? E onde os retos foram destruídos?

 

Elifaz não está dizendo que os inocentes nunca vão morrer. Todo mundo vai morrer um dia. Ele sabe. Elifaz está dizendo que os retos não são destruídos de repente.

 

Em que mundo Elifaz vive? Os inocentes perecem, sim. A história da humanidade começa com Caim matando Abel, em Gênesis 4, o primeiro capítulo depois da Queda. E Abel é inocente! Parece que Elifaz tem a memória seletiva.

 

[8] Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles colhem.

 

A teologia dele é: “Você colhe o que você planta”. Você planta o mal, você colhe o mal. Você planta o bem, você colhe o bem.

 

Implicitamente, Elifaz está falando para Jó: “Jó, pare de semear o mal. Volte a semear o bem, como você fazia no passado, e você vai colher o bem de novo”.

 

Mas qual é o problema com essa teologia? Não é verdade que nós colhemos o que nós plantamos? Isso está na Bíblia! A teologia de Elifaz está na Bíblia! O apóstolo Paulo fala a mesma coisa:

 

Gálatas 6:[7] Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa semear, isso também colherá.

 

Qual é o problema da teologia de Elifaz? O problema é Elifaz toma um princípio e generaliza para todos os casos. Ele usa esse princípio para interpretar a vida de Jó, mas esse princípio não se aplica a Jó.

 

Paulo é mais cuidadoso na aplicação. Paulo aplica para o que colheremos na eternidade:

 

Gálatas 6:[8] Quem semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna. [9] E não nos cansemos de fazer o bem, porque no tempo certo faremos a colheita, se não desanimarmos.

 

Paulo está falando do colheita do dia do julgamento. Ele está falando daqueles que vão colher vida eterna (salvação) e aqueles que vão colher corrupção (condenação). Elifaz não faz isso. Elifaz acha que todas as pessoas, sem exceção, nessa vida, colhem o que plantam, sempre. Essa é uma teologia míope. Que só enxerga de perto, não de longe (para a eternidade).

 

Sim, nós colhemos o que nós plantamos. Nós vivemos em um mundo em que nossos atos têm consequências. Se você roubar uma loja, você vai preso. Se você for preguiçoso, você é demitido. Se você comer muita porcaria, isso pode fazer um estrago na sua saúde. Tudo isso é verdade.

 

Mas nem sempre quem rouba é preso. Nem sempre uma pessoa que é demitida é porque ele foi preguiçosa. Existem milhares de outras causas possíveis. Mutas vezes, nós temos problemas de saúde simplesmente porque nós estamos em um mundo onde nossos corpos não funcionam como deveriam depois de Gênesis 3.

 

Nós sabemos que Jó não está colhendo sofrimento porque ele plantou o mal. É exatamente o contrário. Jó está sofrendo justamente porque ele é piedoso. Elifaz está falando demais. Mais do que ele sabe.

 

Não existe uma causa direta entre o seu pecado e o seu sofrimento, sempre. Às vezes, sim. Sempre, não. A teologia de Elifaz não é completamente falsa, mas a aplicação que ele faz à vida de Jó é completamente falsa.

 

Eu já ouvi cada história de pessoas que enxergam toda a vida com teologia de Elifaz. Alguém tosse e começa a ficar gripado, o outro já fica desconfiado: “Você precisa se arrepender para Deus tirar esse mal de você”. Surge um problema na família, “Tem pecado aí, meu irmão. Larga isso para Deus abençoar”.

 

O autor do livro de Jó está expondo a falta de sabedoria em aplicar esse princípio em todos os casos. No caso de Jó, nós sabemos com certeza: “Jó não está sofrendo por causa de um pecado específico que ele cometeu”.

 

Que o Senhor nos lembre de que nós não sabemos tudo o que ele está fazendo nesse mundo e na vida das pessoas.

 

NÓS NÃO SABEMOS!

A providência de Deus, a maneira como Deus governa o mundo e as nossas vidas, está cheia de mistérios. O caráter de Deus não é um mistério:

 

O Senhor Deus [é] compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em misericórdia e fidelidade (Êxodo 34:6).

 

Ele é. Ele é santo, soberano, sábio e cheio de amor. O caráter de Deus não é um mistério. Mas a providência dele—porque Deus faz e permite algumas coisas nesse mundo—muitas vezes, é um mistério.

 

Elifaz acha que consegue explicar a causa do sofrimento de Jó, mas ele errou feio. Elifaz pode ter boas intenções, mas sem boa teologia, ele não está ajudando Jó. Ele está sendo um exemplo de como NÃO consolar quem sofre.

 

O primeiro ponto do sermão de Elifaz para Jó foi: “Você está colhendo o que você plantou”. Não. Não no caso de Jó.

 

Segundo ponto do sermão de Elifaz (e a segunda maneira de como NÃO consolar quem sofre):

 

2.     ACEITE LOGO QUE VOCÊ PECOU (4:12-5:7) 

Elifaz começa esse segundo ponto no capítulo 4, versículo 12 e ele vai até o capítulo 5, versículo 7. Elifaz avança o argumento dele nesse sermão ruim que ele está pregando para Jó.

 

Eu diria que esse sermão parece mais CONTRA Jó do que PARA Jó. Elifaz está mais para ACUSADOR do que para CONSOLADOR).

 

O argumento de Elifaz é:

 

“Jó, nós sabemos que nós colhemos o que plantamos. Esse foi meu primeiro ponto. Então, Jó, você está sofrendo esse mal porque você plantou pecado. Aceite logo isso. Ninguém sofre do nada. O sofrimento não brota do chão (do nada). Não fique tentando ser justo. A única explicação para o seu sofrimento é o seu pecado”.

 

A introdução de Elifaz para esse segundo ponto é muito estranha. Elifaz está começando a ficar esquisito.

 

INTRODUÇÃO: “EU TIVE UM SONHO” (4:12-16)

Ele fala do sonho que ele teve – que parece mais um pesadelo:

 

[12] Uma palavra me foi trazida em segredo,

e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

[13] Entre pensamentos de visões noturnas,

quando o sono profundo cai sobre as pessoas,

[14] sobrevieram-me o espanto e o tremor,

e todos os meus ossos estremeceram.

[15] Então um espírito passou por diante de mim;

e se arrepiaram os cabelos do meu corpo.

[16] Ele parou, mas não reconheci a sua aparência.

Um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz:

 

O sonho de Elifaz parece mais um pesadelo: ele fala de espanto, ossos tremendo, um espírito passando, vulto diante dos olhos. A visão de Elifaz se parece mais com Halloween do que com o Natal.

 

A impressão que dá é que Elifaz quer dizer “Deus me disse que...” e falar a revelação que ele recebeu. Ele não chega a dizer isso, mas ele fala no versículo 12 que “uma palavra foi trazida para ele em segredo”.

 

“Ouça, Jó. Eu vou contar para você o que Deus me disse”.

 

Alguém já se aproximou de você e fez alguma coisa parecida? “Deus me disse...”. “Eis que te digo...” Eu tenho uma palavra do Senhor para você...”. Qualquer semelhança com os consoladores de hoje não é mera coincidência.

 

Elifaz criou todo esse suspense. O que será que ele irá dizer? Ele tem realmente uma palavra do Senhor?

 

“REVELAÇÃO”: “PODE UM MORTAL SER JUSTO?” (4:17-21)

 

[17] Pode um mortal ser justo diante de Deus?

Pode alguém ser puro diante do seu Criador?

 

Não dá para entender ainda o que Elifaz quer fazer com essas perguntas. Nós precisamos continuar ouvindo o argumento dele e daqui a pouco ficará mais claro.

 

Mas antes de deixar mais claro, Elifaz quer impressionar Jó. E para impressionar Jó com o ponto dele, ele vai da santidade de Deus para a santidade dos anjos para a nossa santidade para mostrar que nenhum ser humano (incluindo Jó) pode ser justo diante de Deus.

 

[18] Eis que Deus não confia nos seus servos

e aos seus anjos atribui imperfeições;

[19] quanto mais àqueles que habitam em casas de barro, [que somos nós, nosso corpo é como uma casa de barro que vai secar e voltar ao pó]

cujo fundamento está no pó, e que são esmagados como a traça!

[20] Nascem de manhã e à tarde são destruídos;

perecem para sempre, sem que ninguém se importe com isso.

[21] Se o fio da vida lhes é cortado, morrem e não alcançam a sabedoria.

 

Se nem os anjos são tão santos quanto Deus, quanto mais nós, seres humanos, que somos frágeis como as traças. Elifaz usa os anjos no começo do capítulo 5 para mostrar para Jó que não tem para onde ele fugir.

 

5:[1] Grite agora, para ver se há quem responda!

E para qual dos santos anjos você se voltará?

 

Por trás, Elifaz está dizendo: “Jó, nem os anjos podem ajudar você, meu amigo. Nem eles são santos o suficiente”. Agora está um pouco mais claro o que Elifaz quer fazer com a pergunta do versículo 17 (uma pergunta que irá ecoar por todo o livro de Jó):

 

[17] Pode um mortal ser justo diante de Deus?

 

É possível alguém ser declarado justo diante de Deus?

 

É verdade que nem um ser humano tem uma vida perfeitamente justa e pura. Mas não é esse o ponto de Elifaz aqui. Elifaz não está repetindo Romanos 3:23 nas palavras dele—"porque todos pecaram e carecem da glória de Deus”—para nos levar a Cristo. O objetivo de Elifaz é muito menos nobre.

 

O que Elifaz está fazendo é usando essa verdade para acusar Jó de ter algum pecado escondido: “Jó, todos os seres humanos vão em algum momento pecar. Nenhum mortal é justo. Jó, você também não é. Você acabou pecando feio e é por isso que você está sofrendo muito”.

 

Elifaz quer convencer Jó que ele está sofrendo porque ele pecou e não admite.  O que nós sabemos, porque o autor do livro de Jó nos contou no capítulo 1 e 2, que não é verdade.

 

Elifaz teve um sonho e entendeu que era uma palavra do Senhor, mas o que Elifaz fala se parece mais com o que Satanás disse.

 

Foi Satanás que disse que nenhum ser humano anda, de forma genuína, em justiça e pureza, diante de Deus (Ash, Job, 107). Foi o discurso de Satanás para acusar Jó de ser um interesseiro.

 

Satanás disse que não existe adoração genuína e Deus. É tudo uma farsa. Algumas pessoas fingem ser justas, elas fingem ser piedosas, mas não é sincero. A visão de Elifaz se parece mais com a morte do Halloween do que com a vida do Natal.

 

Nós chegamos no capítulo 5. Elifaz ainda está no segundo ponto do sermão. Ele quer convencer Jó a aceitar que Jó está sofrendo tudo isso porque ele tem algum pecado escondido. Na mente de Elifaz, essa é a única explicação para Jó estar sofrendo desse jeito.

 

O segundo ponto de Elifaz é: “aceite logo que você pecou (segunda parte do capítulo 4) porque ninguém sofre do nada (primeira parte do capítulo 5—até o versículo 7).

 

NINGUÉM SOFRE DO NADA (5:1-7) 

A falta de sensibilidade e compaixão de Elifaz agora chega ao ápice. Que o Senhor tenha misericórdia de nós quando formos consolar alguém! Que ele coloque um trava em nossa boca para não fazermos o que Elifaz faz. Vamos até o versículo 5. Veja o que Elifaz faz:

 

5:[2] Porque a ira mata o insensato, e a inveja destrói o tolo. [3] Eu mesmo vi o insensato lançar raízes, mas logo declarei maldita a sua habitação. [4] Os filhos dele estão longe do socorro; são oprimidos nos tribunais, e não há quem os livre. [5] A sua colheita, o faminto a devora, arrebatando até o que se encontra no meio de espinhos; e o sedento suga os seus bens.

 

Olha o que Elifaz está fazendo!? Não é possível! Ele está dando exemplos do que acontece com aqueles que são tolos—que vivem no pecado e não temem a Deus.

 

• No versículo 4, Elifaz diz que os filhos do tolo estão longe do socorro. Eles morrem.

• No versículo 5, ele fala que os tolos perdem todos os seus bens.

 

Você se lembra de alguém que acabou de perder todos os filhos e todos os bens? Jó! É como se você—que está andando com o Senhor—chegasse para um amigo para falar: “Nós acabamos de voltar do médico. Ele disse que nosso filho tem uma doença rara e ele só tem mais 2 meses de vida”. E você ouvisse do seu amigo. “Ah é? Aconteceu a mesma coisa com o meu vizinho, um homem horrível. Eu acho que Deus está punindo a ele”.

 

Que falta de sensibilidade enorme! Ó Senhor, tenha misericórdia de nós. Nós dê a compaixão do Senhor Jesus pelas pessoas.

 

Mas Elifaz ainda não terminou esse segundo ponto.

 

[6] Porque a aflição não vem do pó, e o sofrimento não brota do chão. [7] Mas o ser humano nasce para o sofrimento, como as faíscas das brasas voam para cima.

 

Ou seja: “Jó, ninguém sofre do nada. O sofrimento não brota do chão (do nada). Cada aflição nossa é consequência de algum pecado nosso. (Essa é a teologia de Elifaz, não da Bíblia!).

 

Jó, nós somos pecadores; é certo que nós vamos sofrer porque nós cometemos algum pecado. É impossível você evitar pecar para sempre. Uma hora você vai pecar, e quando isso acontecer, você irá sofrer (Belcher, Job, 44). É tão certo quanto as faíscas da brasas voam para cima.

 

Elifaz está mais para acusador do que para consolador.

 

Mas me permita repetir uma coisa importante: Elifaz ama Jó. Ele veio de longe para ficar com Jó. Na mente de Elifaz, ele pensa estar fazendo bem à Jó. Mas ele não está. Boa intenção misturada com má teologia dá um prato que contamina nossa. Nós precisamos da pureza da Palavra de Deus para nos alimentar e nos consolar.

 

E aqui, antes do terceiro ponto do sermão de Elifaz, uma aplicação importante para nós:

 

Nós devemos interpretar nossas experiências a partir das Escrituras, e não dar um peso excessivo às nossas experiências.

 

Nossas experiências não podem ter um peso maior do que a Palavra de Deus.

 

Veja o padrão problemático que Elifaz tem. Veja se ele não coloca peso demais nas experiências—acima até da verdade de Deus:

 

4:[8] Segundo eu tenho visto, os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles colhem.

4:[12] Uma palavra me foi trazida em segredo, e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela. [Uma revelação extra.]

5:[3] Eu mesmo vi o insensato lançar raízes, mas logo declarei maldita a sua habitação.

 

“Segundo eu tenho visto”. “Uma palavra me foi trazida em segredo”. “Eu mesmo vi”.

 

A sabedoria de Elifaz parece que vem do próprio Elifaz. Ele é a fonte. As experiências dele. O que ele viu. O que ele sonhou. O que ele ouviu.

 

Sempre que nós colocamos nossas experiências acima das Escrituras, nós estamos andando em terreno perigoso. Um terreno escorregadio, em vez do solo firme da Palavra de Deus.

 

Povo de Deus, nós somos o povo da Palavra de Deus. Nós usamos as Escrituras para interpretar nossas experiências, não o contrário.

 

Se o povo de Deus seguisse essa ordem, nossas decisões seriam mais prudentes. Nossas palavras seriam mais sábias. Nós estaríamos menos confusos e mais seguros. E nossa vida traria mais glória a Deus.

 

A fonte dos nossos conselhos e do nossos consolos é a Palavra infalível de Deus, não a nossa leitura falível do que acontece conosco e com os outros.

 

Elifaz tem mais um terceiro e último ponto em seu sermão para Jó—ou seu sermão CONTRA Jó. Esse é o ponto mais difícil de lidar porque Elifaz fala algumas coisas lindas e verdadeiras, mas porque a teologia dele é simplista, ele não aplica de forma sábia e humilde. E ele acaba estragando tudo.

 

Primeiro Ponto: VOCÊ ESTÁ COLHENDO O QUE VOCÊ PLANTOU (4:1-11).

Segundo Ponto: ACEITE LOGO QUE VOCÊ PECOU PORQUE NINGUÉM SOFRE DO NADA (4:12-5:7).

 

3.     SE VOCÊ CONFESSAR, AS COISAS VÃO MELHORAR (5:8-27) 

“Se você se arrepender, as coisas vão se resolver, porque Deus está disciplinando você para o seu bem”. Esse é o terceiro ponto de Elifaz. Basta você confessar, e o mar agitado da sua vida irá se acalmar como uma tarde serena em uma praia isolada.

 

Será que esse é o problema de Jó—e de todos os cristãos que sofrem? Basta confessar que a vida vai melhorar?

 

Mas nós precisamos admitir: o versículo 8 ao 16 é o melhor trecho de tudo o que Elifaz disse até agora. Ele fala verdades maravilhosas sobre Deus, mas a maneira como ele aplica é, de novo, desastrosa.

 

O argumento dele nesse trecho é mostrar que Deus tem poder para reverter situações: Deus exalta quem se humilha e humilha quem se exalta. (O que é verdade!).

 

DEUS REVERTE 

Eu vou ler o trecho. É lindo!

 

[8] Quanto a mim, eu buscaria a Deus e a ele entregaria a minha causa. [9] Deus faz coisas grandes e insondáveis, maravilhas que não se podem enumerar. [Amém, Elifaz!] [10] Faz chover sobre a terra e envia águas sobre os campos. [Sim, Elifaz!] [11] Põe os abatidos num lugar alto e conduz os enlutados a um lugar seguro. [Amém, Elifaz!] [12] Deus frustra os planos dos astutos, para que não possam realizar seus projetos. [Amém!]

[13] Ele apanha os sábios na própria astúcia deles, e o conselho dos que tramam não chega a vingar. [Amém, Deus faz isso!]

[14] De dia eles encontram as trevas, e ao meio-dia andam tateando como se fosse noite. [15] Porém Deus salva da espada que lhes sai da boca, salva os necessitados das mãos dos poderosos [Amém, Elifaz!].

 

Fora de contexto, esse trecho é maravilhoso. Parece até Ana orando depois que ela engravidou de Samuel. Parece a oração de Maria quando ela ficou grávida de Jesus.

 

Elifaz quer dar esperança para Jó. Olha o que ele disse no versículo 16:

 

[16] Assim, há esperança para os pobres, e a iniquidade tapa a sua própria boca.

 

Elifaz está dizendo:

 

“Jó, calma! Por que você está apavorado desse jeito? Há esperança! Você está pobre. Você perdeu tudo. Você está abatido e enlutado. Mas Deus reverte as situações mais difíceis. Deus tem poder para fazer coisas grandes e insondáveis, Jó. Esperança, meu irmão!”

 

É verdade! Elifaz tem razão. Ele tem toda a razão.

 

Vocês sabiam que o único versículo de Jó que é citado diretamente no Novo Testamento está nesse trecho de Elifaz. Paulo cita Elifaz para nos chamar a rejeitarmos a sabedoria do mundo e nos humilharmos diante da sabedoria de Deus:

 

Que ninguém engane a si mesmo! Se algum de vocês pensa que é sábio neste mundo, faça-se louco para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Pois está escrito: “Ele apanha os sábios na própria astúcia deles.”

 

Paulo está citando Jó 5:13: palavra por palavra.

 

Como Paulo pode citar Elifaz—um consolador tão ruim? Paulo pode citar Elifaz porque isso que Elifaz está dizendo é verdade. O problema, neste trecho, não está no que ele fala, mas em como ele aplica a Jó logo em seguida.

 

Aqui está a ironia: Elifaz fala que Deus apanha os sábios na própria astúcia deles, mas Elifaz não percebe que ele está agindo com a sabedoria do mundo, não a sabedoria de Deus.

 

Apesar desse trecho do versículo 8 ao 16 ser um trecho lindo que fala muitas verdades sobre Deus, a maneira como Elifaz usa na vida de Jó mostra a falta de sabedoria dele.

 

Ele acha que Deus está disciplinando Jó por causa de um pecado:

 

DEUS ESTÁ DISCIPLINANDO VOCÊ (5:17-27)

 

[17] Bem-aventurado é aquele a quem Deus disciplina!

Portanto, não despreze a disciplina do Todo-Poderoso.

[18] Porque ele faz a ferida e ele mesmo a faz sarar;

ele fere, e as suas mãos curam.

 

Vocês percebem o que Elifaz está fazendo? Ele está dizendo: “Jó, Deus está disciplinando você. Humilhe-se. Confesse seu pecado. Deus está disciplinando você para o seu bem. Não despreze a disciplina do Senhor. Se você se humilhar e se arrepender e confessar, então Deus vai sarar você”.

 

Mas quem disse que Deus está disciplinando Jó por alguma coisa que ele fez? Deus não está disciplinando Jó. Não no sentido de corrigir Jó porque ele estava desobedecendo, como um pai que disciplina o filho.

 

Não é isso que está acontecendo. Nós sabemos disso porque o autor nos contou nos capítulos 1 e 2. O sofrimento de Jó não tem nada a ver com pecados escondidos de Jó.

 

Elifaz pode até ter boa intenção, mas ele está sendo arrogante. Ele acha que sabe mais do que ele realmente sabe.

 

Nós devemos ter muito cuidado em declarar as razões por que as pessoas estão sofrendo. Como se sempre existisse essa relação imediata entre o pecado de alguém e o sofrimento dela.

 

Quando acontece uma tragédia, muitas pessoas correm para declarar seus vereditos—seja na internet ou nas igrejas:

 

• Esse terremoto aconteceu porque o povo daquela terra tem muito pecado.

• O COVID foi o julgamento de Deus.

• O furacão tal foi o julgamento de Deus por causa da imoralidade daquela região.

• Aquela pessoa está doente porque tem pecado naquele coração.

 

Pode ser. Pode não ser. Eu não sei. Ninguém sabe. Se Deus não revelar, não tem como nós sabermos.

 

Deuteronômio 29:29—As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e aos nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.

 

Que o Senhor nos dê humildade de não falarmos mais do que Deus falou. Elifaz está seguro de que Deus está disciplinando Jó por causa do pecado dele. Mas Elifaz está errado.

 

Mas Deus não disciplina? Sim, Deus disciplina! Deus é um pai amoroso que nos disciplina.

 

Hebreus 12—Deus os trata como filhos. E qual é o filho a quem o pai não corrige? Deus... nos disciplina para o nosso próprio bem, a fim de sermos participantes da sua santidade. (vv. 7, 10).

 

Sim, Deus nos disciplina para o nosso bem. Às vezes, nós sabemos que Deus está nos disciplinando. Às vezes, a relação entre o nosso pecado e Deus nos corrigindo parece clara, especialmente quando é conosco—em nossa própria vida. Mas nós declararmos isso sobre a vida de outras pessoas é geralmente presunção.

 

A falta de teologia bíblica junto com a falta de compaixão fazem Elifaz falar o que não deve.

 

O final do sermão de Elifaz é a teologia da prosperidade misturada com falta de sensibilidade. Vamos continuar aprendendo com Elifaz como NÃO consolar quem sofre.

 

Elifaz promete duas coisas para Jó: primeiro, você terá uma vida sem problema:

 

[19] De seis angústias ele o livrará,

e na sétima o mal não tocará em você.

[20] Na fome ele livrará você da morte;

na guerra, do poder da espada.

[21] Você estará abrigado do açoite da língua

e, quando vier a destruição, não ficará com medo.

 

Segunda promessa: você terá uma vida não só sem problema, mas cheia de bençãos (e veja a falta de sensibilidade de Elifaz):

 

[24] Saberá que a sua tenda está em paz;

percorrerá as suas posses

e não achará falta de nada. [– mas Jó acabou de perder tudo.]

[25] Saberá que a sua descendência se multiplicará, [mas Jó acabou de perder todos os filhos.]

e que a sua posteridade será como a erva da terra.

[26] Em robusta velhice você descerá à sepultura,

como se recolhe o feixe de trigo no tempo certo. [mas Jó está cheio de tumores.]

 

Esse último ponto de Elifaz é: “Tenha esperança, Jó. As coisas vão se resolver, mas você precisa fazer se arrepender”.

 

Elifaz parece um pregador da prosperidade. Elifaz é um excelente exemplo de como NÃO consolar alguém.

 

Não Elifaz, Jó não tem pecados escondidos para se arrepender. Assim você, além de não ajudar, está afundando Jó ainda mais. Ele termina o sermão dele com um “Veja bem!”:

 

[27] Veja bem! Isto é o que investigamos,

e assim é. Ouça e medite nisso para o seu bem.

 

Eu não duvido que Elifaz deseja o bem de Jó. Mas vocês percebem o perigo de uma teologia simplista, míope e desequilibrada. Na mente de Elifaz (e de muitos evangélicos) os bons se dão bem e os maus se dão mau.

 

Nem sempre. Não existe uma relação direta (sempre!) entre pecado e sofrimento.

 

Muitas vezes, crentes piedosos sofrem grandes golpes nessa vida. É o caso de Jó! E de muitos outros. Não é a intenção de Elifaz, mas o que ele está fazendo com Jó é quase cruel.

 

Essa mensagem de que “se você andar com Deus, você terá uma vida sem sofrimento; se você andar com Deus, você será muito abençoado” pode parecer boa de início.

 

Mas essa teologia simplista e triunfalista é como algodão-doce. Você come dela e ela pode saciar por 15 minutos. Mas não tem a sustância (os nutrientes espirituais) que você precisa para enfrentar a vida—com todas as lutas que ela traz.

A teologia da prosperidade é como uma droga: ela traz uma sensação rápida de alívio, mas depois que passa o efeito, ela deixa a pessoa ainda mais vazia. Ainda pior.

 

A mensagem de Jesus é diferente da mensagem de Elifaz. A mensagem de Jesus é mais saudável e mais realista. A mensagem de Jesus é uma mensagem centrada na vitória dele sobre o mal:

 

João 16:33—No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo.

 

CONCLUSÃO 

Nós devemos rejeitar essa teologia simplista e triunfalista de Elifaz. Ela tem sérios problemas e irá trazer sérios problemas para a nossa vida.

 

E o maior dos problemas, a teologia de Elifaz não tem espaço para inocentes sofrendo sem ter cometido pecado. Mas nós precisamos dessa categoria em nossa teologia. Essa categoria de que, sim, inocentes sofrem. Porque é nessa categoria que está o Salvador que nós precisamos.

 

Elifaz fez a pergunta no capítulo 4, versículo 7:

 

4:[7] (...) será que algum inocente já chegou a perecer?

 

Um escritor cristão disse bem: “A Bíblia responde essa pergunta com uma cruz enorme e eterna” (Ash, Trusting God, 58).

 

Será que algum inocente já chegou a perecer?

A resposta de Elifaz é “não”.

Mas a resposta de Deus é: “Sim, veja meu Filho morto por vocês no madeiro”.

 

O Deus imortal que se fez homem mortal e morreu como inocente no lugar dos culpados. No nosso lugar.

 

E por causa da nossa fé nele, nós somos declarados justos diante de Deus. Por causa da nossa fé nele, nós considerados puros (perfeitamente puros!) diante do nosso Criador.

 

Essa é a nossa esperança, nossa única esperança: que um inocente morra para nos salvar. E essa é a esperança que a cruz oferece. Essa é a mensagem que nos dá consolo de verdade. É dessa teologia que nós precisamos.



Igreja Batista Jardim Minesota

Rua Clotildes Barbosa de Souza, 144

Jardim Santa Maria (Nova Veneza) Sumaré - São Paulo

 
 
 

1 comentário


Convidado:
há 3 dias

Simplesmente libertadora essa palavra, nos ensina a abordar alguém que esteja passando por dificuldades, da maneira correta, sem pré julgamento.

Deus abençoe

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